Modder Brasileiro Ressuscita a RTX 3070 Ti com 16 GB que a NVIDIA Cancelou

Modder Brasileiro Ressuscita a RTX 3070 Ti com 16 GB que a NVIDIA Cancelou

Às vezes, o hardware mais interessante do mercado não sai das fábricas da NVIDIA ou AMD — sai da bancada de um modder. Um brasileiro identificado como fmklab acaba de fazer exatamente isso: construiu uma RTX 3070 Ti com 16 GB de VRAM, uma configuração que a NVIDIA chegou a planejar internamente durante o ciclo Ampere, mas que nunca chegou às prateleiras. A façanha, reportada pelo TechPowerUp, não é apenas um exercício de curiosidade técnica — ela levanta questões sérias sobre decisões de mercado da NVIDIA, o impacto da VRAM limitada nos jogos modernos e o que poderia ter sido diferente para milhões de gamers que compraram a placa original com 8 GB.

A história por trás dessa modificação é tão relevante quanto a própria técnica envolvida. A RTX 3070 Ti foi lançada em junho de 2021 com apenas 8 GB de GDDR6X — uma decisão que, à época, já gerava críticas, mas que hoje, com jogos como Alan Wake 2, Starfield e Black Myth: Wukong exigindo 10 GB ou mais para rodar em ultra, ficou ainda mais difícil de defender. O fmklab decidiu corrigir isso com as próprias mãos.

A Técnica: Não é Só Trocar os Chips de Memória

O que torna essa modificação tecnicamente impressionante é justamente o que ela não fez: fmklab não simplesmente soldou chips de memória maiores no lugar dos originais — o que seria impossível dado o barramento de memória da GPU. Em vez disso, segundo o TechPowerUp, o modder trabalhou em nível de firmware e de configuração de chips para dobrar a capacidade efetiva da placa, remanejando a arquitetura de endereçamento de memória. O processo envolve modificações no BIOS da GPU e ajustes precisos na identificação dos módulos GDDR6X, de forma que o controlador de memória da GA104 (o chip gráfico da 3070 Ti) reconheça o dobro do espaço disponível.

Não é trivial. O controlador de memória da GA104 foi projetado com suporte a configurações maiores — afinal, a própria NVIDIA usou o mesmo die na RTX 3080 com 10 GB e na RTX 3080 Ti com 12 GB. Existe, portanto, capacidade latente no silício. A questão é que a NVIDIA travou essa capacidade por decisão comercial, não por limitação física. Fmklab desbloqueou o que já estava lá.

Modificação da RTX 3070 Ti com 16 GB feita pelo modder brasileiro fmklab
Modificação da RTX 3070 Ti com 16 GB feita pelo modder brasileiro fmklab

Por Que a NVIDIA Cancelou a Versão de 16 GB?

Para entender o peso dessa modificação, é preciso voltar a 2021. Durante o desenvolvimento da linha Ampere, a NVIDIA considerou versões com mais VRAM para vários modelos — incluindo uma RTX 3070 Ti com 16 GB. A decisão de não lançá-la foi, essencialmente, estratégica: a empresa queria diferenciar claramente as faixas de preço e empurrar consumidores que precisassem de mais memória para placas mais caras, como a RTX 3080. Com 8 GB, a 3070 Ti ficava “suficiente” para 1440p na época, mas com prazo de validade embutido.

Esse padrão se repetiu na geração Ada Lovelace: a RTX 4060 foi lançada com 8 GB num momento em que a concorrência já oferecia 12 GB (RX 7600 XT), e a RTX 4070 chegou com 12 GB enquanto a AMD entregava 16 GB na RX 7900 GRE. A NVIDIA só corrigiu o curso na série RTX 50, onde mesmo a RTX 5070 vem com 12 GB — ainda assim criticada por alguns analistas para uma placa de US$ 549.

“A NVIDIA considerou uma RTX 3070 Ti com 16 GB durante o desenvolvimento Ampere, mas nunca a trouxe ao mercado — fmklab fez o que a empresa escolheu não fazer.”

TechPowerUp, setembro de 2026

Comparativo: O Que Muda com 16 GB na Prática?

A pergunta prática é: dobrar a VRAM de 8 para 16 GB na 3070 Ti muda alguma coisa de verdade nos jogos de 2026? A resposta é sim — e é aí que a modificação deixa de ser curiosidade e vira argumento técnico relevante.

Jogo / CenárioRTX 3070 Ti 8 GBRTX 3070 Ti 16 GB (mod)
Alan Wake 2 (Ultra, 1440p)Stutters / queda para low texturesTexturas completas carregadas
Black Myth: Wukong (Ultra, 1440p)VRAM overflow frequenteHeadroom confortável
Starfield (Ultra, 1080p)Pops de textura visíveisCarregamento estável
Cyberpunk 2077 + RT (1440p)Limitado a médio/altoUltra sem compressão de textura
Jogos eSports (CS2, Valorant)Sem diferençaSem diferença

Os dados acima são estimativas baseadas no comportamento documentado da 3070 Ti em benchmarks públicos e nas limitações conhecidas de VRAM em títulos AAA recentes — o TechPowerUp não publicou benchmarks completos da versão modificada no momento desta reportagem. Mas o padrão é claro: em jogos que já estressam 8 GB, a versão modificada deve eliminar os gargalos de memória, deixando o desempenho limitado apenas pelo poder de processamento da GA104.

Também na Cena de Mods: DLSS Multi Frame Generation no Ampere

A notícia do fmklab não vem sozinha. Na mesma semana, o TechPowerUp também reportou que modders desbloquearam o DLSS Multi Frame Generation (MFG) para GPUs RTX 30 da série Ampere, através de um mod chamado DLSSG SM86. O MFG é uma tecnologia de geração de quadros múltiplos que a NVIDIA oficialmente reservou para as RTX 50 — mas que, na prática, tem dependências de software que podem ser contornadas em hardware mais antigo.

Juntas, as duas notícias pintam um quadro revelador: a comunidade de modding está sistematicamente desbloqueando capacidades que a NVIDIA optou por não oferecer ao mercado. Seja por limitação artificial de VRAM, seja por restrição de software em tecnologias de upscaling, o padrão é o mesmo — o hardware tem mais capacidade do que a empresa deixa usar. Isso não é necessariamente ilegal ou antiético da parte da NVIDIA (segmentação de mercado é prática padrão na indústria), mas é um lembrete de que o consumidor nem sempre recebe o produto em seu potencial máximo.

Linha RTX 30 Ampere: decisões de VRAM que ainda geram debate
Linha RTX 30 Ampere: decisões de VRAM que ainda geram debate

Ângulo Brasileiro: O Peso da VRAM no Mercado Nacional

Para o consumidor brasileiro, essa história tem uma camada extra de relevância. A RTX 3070 Ti foi lançada no Brasil em 2021 por valores que chegavam a R$ 5.500 a R$ 6.500 dependendo do AIB (fabricante parceiro, como ASUS, Gigabyte e MSI). Hoje, no mercado secundário, unidades usadas aparecem entre R$ 1.800 e R$ 2.800 — um ponto de entrada razoável para quem quer uma GPU Ampere para 1440p.

O problema é que, com jogos modernos exigindo cada vez mais VRAM, a 3070 Ti com 8 GB está envelhecendo mais rápido do que deveria. Quem comprou a placa esperando vida útil longa se vê pressionado a atualizar antes do planejado. Uma versão modificada com 16 GB — se viável em escala, o que ainda não é o caso — poderia estender a vida útil dessa GPU por mais dois ou três anos facilmente.

O mod do fmklab, por ora, é uma prova de conceito — não um produto que você pode comprar ou replicar facilmente em casa. Requer equipamento especializado, conhecimento profundo de firmware de GPU e tolerância ao risco de fritar a placa. Mas o valor simbólico e técnico é enorme: um brasileiro mostrou ao mundo que a NVIDIA deixou performance na mesa, e que é possível resgatá-la.

Num mercado onde uma placa de vídeo nova de entrada custa R$ 1.500 e as de topo ultrapassam R$ 15.000 com câmbio e impostos, qualquer forma de extrair mais vida útil do hardware existente tem valor real para o consumidor nacional.

Veredito Editorial: Quando o Modder Faz Melhor que a Fabricante

A façanha do fmklab é, ao mesmo tempo, uma celebração da engenhosidade da comunidade de hardware e uma crítica implícita às práticas de segmentação de mercado da NVIDIA. Não há nada de errado em uma empresa criar versões diferentes de um produto para diferentes faixas de preço — mas quando a limitação é artificial e prejudica a longevidade do produto para o consumidor final, a discussão é legítima.

O que fmklab fez não vai mudar o mercado de GPUs da noite para o dia. Mas vai entrar para a história como um dos mods de hardware mais significativos da geração Ampere — e como prova de que o Brasil produz talento técnico de nível mundial no universo do hardware.

O Que Isso Significa Para Você

  • Gamer com RTX 3070 Ti: Não tente replicar o mod em casa — o risco de dano permanente à placa é alto. Mas fique atento: se a técnica for documentada e simplificada pela comunidade, pode ser uma alternativa real a trocar de GPU. Por enquanto, ajuste as configurações de textura em jogos pesados e use DLSS para compensar o gargalo de VRAM.
  • Gamer buscando upgrade: A história reforça que VRAM importa e vai importar cada vez mais. Na hora de escolher sua próxima GPU, priorize modelos com no mínimo 12 GB — evite repetir o erro de quem comprou 8 GB achando que seria suficiente por anos.
  • Criador de conteúdo / profissional: Para workloads de renderização e IA local, 16 GB de VRAM fazem diferença concreta. O mod mostra que o hardware Ampere tem potencial inexplorado, mas para uso profissional, o caminho mais seguro ainda é investir em uma GPU nova com VRAM adequada de fábrica.
  • Custo-benefício / mercado secundário: Se você está de olho em uma RTX 3070 Ti usada, o preço atual de R$ 1.800 a R$ 2.800 ainda pode fazer sentido para 1080p e 1440p em jogos menos exigentes. Para títulos AAA de 2026 em ultra, o gargalo de 8 GB vai aparecer. Considere alternativas como a RX 7700 XT (12 GB) ou RTX 4060 Ti 16 GB no mercado secundário.
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