Quem monta PC há mais de uma década sabe que o preço da memória RAM sempre foi uma das poucas certezas no caótico mercado de hardware: cedo ou tarde, o custo por gigabyte cai. Essa lógica vigorou por décadas, guiada pela Lei de Moore e pela evolução constante dos processos de fabricação. Mas, segundo análise publicada pelo Tom’s Hardware, a IA quebrou essa regra de ouro — e jogou os preços de volta ao patamar de 2007, apagando vinte anos de progresso em questão de meses.
O alerta vem do cientista Daniel Lemire, pesquisador de computação que monitora a evolução dos preços de memória há anos. Em declaração repercutida pelo Tom’s Hardware, ele afirma que o custo normalizado por gigabyte de módulos DRAM voltou aos níveis de 2007 — e que esta é, historicamente, a primeira vez que os preços de um componente de tecnologia subiram de forma tão abrupta e sustentada. Para o consumidor brasileiro, que já convive com câmbio desfavorável e impostos de importação salgados, o impacto é ainda mais severo.
Entender o que está acontecendo exige olhar além do pregão do dia: é uma mudança estrutural no mercado de memória, com raízes na explosão da demanda por IA generativa e implicações diretas para quem quer montar ou atualizar um PC gamer hoje.
Vinte anos de queda livre — e um freio de arrumação
Para contextualizar a gravidade do que está acontecendo: entre 2000 e 2023, o preço por gigabyte de memória RAM caiu de forma quase exponencial. Em 2007, um gigabyte de DRAM custava, em média, cerca de US$ 20. Em 2023, esse mesmo gigabyte chegou a menos de US$ 0,10 nos momentos de maior deflação do mercado. Isso significa uma redução de mais de 99% em menos de duas décadas — uma das quedas de preço mais rápidas já registradas em qualquer setor industrial.
Esse ciclo era alimentado por uma dinâmica bem conhecida: fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron investiam em novos nós de processo (DDR4, DDR5, LPDDR5), aumentavam a densidade por chip e reduziam o custo unitário. O mercado oscilava em ciclos de escassez e excesso de oferta, mas a tendência de longo prazo era sempre descendente. Montadores de PC e consumidores podiam contar com isso.
A IA generativa virou essa mesa. O treinamento e a inferência de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) — como GPT-4, Llama 3, Gemini e seus sucessores — exigem quantidades absurdas de memória de alta largura de banda (HBM, sigla em inglês para High Bandwidth Memory). Cada GPU H100 da NVIDIA, por exemplo, carrega 80 GB de HBM3. Um cluster de treinamento com milhares dessas GPUs consome mais DRAM do que vários países inteiros consumiam há dez anos. E a demanda não para de crescer.

O efeito cascata: de HBM para DDR5 de consumo
Você pode estar se perguntando: se o problema é a HBM usada em GPUs de data center, por que o preço do DDR5 que vai no meu PC está subindo? A resposta está na capacidade de fabricação compartilhada. Samsung, SK Hynix e Micron usam as mesmas fábricas (fabs) e processos de litografia para produzir diferentes tipos de DRAM. Quando a demanda por HBM explode, essas empresas redirecionam capacidade produtiva para atender contratos bilionários com Microsoft, Google, Amazon e Meta — deixando menos espaço para produzir DDR5 e LPDDR5 para o mercado de consumo.
O resultado é um aperto de oferta que se traduz em preços mais altos na ponta do consumidor. Segundo dados acompanhados pelo Tom’s Hardware e por analistas do setor, os preços de módulos DDR5 de consumo subiram entre 30% e 60% ao longo de 2025, dependendo da capacidade e do fabricante. E a tendência para 2026 não é de reversão — pelo menos não no curto prazo.
“Esta é a primeira vez que os preços de um componente de tecnologia subiram de forma sustentada. A demanda por IA desfez vinte anos de progresso em questão de meses.”
— Daniel Lemire, cientista de computação, via Tom’s Hardware
Números que assustam: a tabela da memória ao longo do tempo
Para visualizar a dimensão do retrocesso, veja a evolução do custo médio por gigabyte de DRAM de consumo ao longo dos anos, com base nos dados históricos compilados por Lemire e referenciados pelo Tom’s Hardware:
| Ano | Custo aprox. por GB (USD) | Contexto |
|---|---|---|
| 2007 | ~US$ 20,00 | Era do DDR2; memória cara e escassa |
| 2012 | ~US$ 5,00 | DDR3 em expansão; queda acelerada |
| 2017 | ~US$ 7,00 | Pico de escassez DDR4; ciclo de alta |
| 2020 | ~US$ 3,00 | Excesso de oferta; preços em queda |
| 2023 | ~US$ 0,10 | Mínimo histórico; deflação severa |
| 2025–2026 | ~US$ 4–8 | Crise de IA; reversão abrupta de tendência |
Os valores de 2025–2026 são estimativas baseadas nos movimentos de preço reportados pelo Tom’s Hardware e por analistas como os da TrendForce. A volatilidade é alta e varia por tipo de módulo (DDR4 ainda é mais barato que DDR5), mas a direção é clara: estamos em território de preços que não víamos há quase duas décadas.
O ângulo brasileiro: câmbio e impostos amplificam a dor
Para o consumidor brasileiro, a crise tem um multiplicador cruel: o câmbio. Com o dólar oscilando entre R$ 5,70 e R$ 6,20 ao longo de 2025 e 2026, qualquer alta em dólar chega amplificada ao bolso nacional. Some a isso o Imposto de Importação (que pode chegar a 60% em produtos eletrônicos dependendo da categoria), o ICMS estadual e as margens dos distribuidores, e você tem um cenário em que um kit de 32 GB DDR5 que custava R$ 350 em 2023 pode facilmente ultrapassar R$ 700 a R$ 900 em 2026.
Há ainda um detalhe perverso para quem monta PC no Brasil: boa parte da memória vendida aqui ainda é DDR4, que depende de estoques importados de módulos fabricados no exterior. Com os fabricantes priorizando HBM e DDR5 para data centers, a reposição de DDR4 fica mais lenta — e o preço, que deveria continuar caindo por ser tecnologia mais antiga, estabilizou ou subiu levemente.

O caso bizarro: empresa destruindo MacBooks com 48 GB de RAM
A crise tem gerado comportamentos inusitados no mercado corporativo. O Wccftech reportou o relato de um ex-funcionário que revelou que sua empresa estava destruindo MacBooks com 48 GB de memória unificada em vez de revendê-los ou doá-los — aparentemente por políticas internas rígidas de descarte de equipamentos corporativos. O episódio virou símbolo da irracionalidade que a escassez pode gerar: máquinas com memória que vale ouro sendo literalmente inutilizadas enquanto o mercado grita por mais capacidade.
Esse tipo de desperdício não é exclusividade de uma empresa. Grandes corporações frequentemente têm políticas de descarte que proíbem a revenda de equipamentos por questões de segurança de dados ou compliance. Mas, num contexto de crise de memória, o custo de oportunidade desse desperdício ficou escancarado.
Quando os preços vão cair? O que dizem os analistas
A resposta honesta é: ninguém sabe ao certo. A demanda por IA não dá sinais de desaceleração — pelo contrário. A corrida entre OpenAI, Google, Meta, Amazon e dezenas de startups por capacidade de treinamento e inferência continua acelerada. Enquanto isso, a expansão da capacidade de fabricação de HBM leva anos: construir uma nova fab de semicondutores custa entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões e demora de três a cinco anos para entrar em operação plena.
Analistas da TrendForce estimavam, no início de 2026, que os preços de DRAM de consumo poderiam se estabilizar no segundo semestre de 2026 se a demanda por HBM se acomodar um pouco. Mas esse cenário depende de variáveis difíceis de prever, como o ritmo de adoção de novos modelos de IA e possíveis restrições geopolíticas ao fornecimento de chips (especialmente envolvendo Taiwan e Coreia do Sul).
O que parece certo é que a era de “memória RAM barata como commodity” acabou — pelo menos temporariamente. A nova realidade é de um mercado onde a memória compete diretamente com a demanda de data centers, e o consumidor doméstico está na fila de menor prioridade.
O que isso significa para você
- 🎮 Gamer montando PC do zero: Se você está planejando uma build nova, priorize pelo menos 32 GB de RAM agora — mesmo que seu uso atual não exija tanto. Jogos modernos estão consumindo cada vez mais memória (alguns títulos AAA já recomendam 32 GB), e comprar mais agora pode ser mais barato do que expandir depois, quando os preços podem estar ainda mais altos. DDR4 ainda oferece melhor custo-benefício em plataformas AM4 e LGA1200, se você não precisar de DDR5 obrigatoriamente.
- 🎬 Criador de conteúdo: Edição de vídeo em 4K, renderização 3D e trabalho com assets pesados já exigem 32 GB ou mais. Com os preços em alta, vale avaliar se vale a pena atualizar agora ou aguardar uma eventual estabilização. Se sua máquina atual aguenta o workflow, segurar o upgrade por 6 a 12 meses pode fazer sentido.
- 🤖 Quem usa PC para IA local (LLMs, Stable Diffusion): Aqui a dor é dupla: além da RAM do sistema, a VRAM das GPUs também está pressionada pela mesma crise. Se você precisa rodar modelos localmente, o custo total de uma build capaz ficou significativamente mais alto. Considere soluções de nuvem para workloads mais pesados enquanto os preços não normalizam.
- 💰 Custo-benefício / quem quer economizar: Fique de olho em kits DDR4 de segunda mão ou em promoções de estoque antigo. Plataformas como AM4 (Ryzen 5000) ainda são excelentes para gaming e trabalho, e a memória DDR4 usada pode ser encontrada a preços razoáveis. Evite comprar memória parcelada em muitas vezes — a correção monetária pode tornar o parcelamento mais caro do que parece.
Veredito editorial: A crise de memória RAM é real, estrutural e não tem data certa para acabar. O mercado de hardware para consumidores — incluindo o brasileiro — está pagando o preço da corrida global pela IA. Quem precisa montar ou atualizar agora deve agir com planejamento: comprar o necessário, evitar postergações desnecessárias e ficar atento a promoções pontuais. Quem pode esperar, que espere — mas sem contar com uma reversão rápida. A memória que era commodity virou ativo disputado, e isso muda o jogo para todos nós.



