Se você estava esperando o momento certo para comprar uma placa de vídeo nova, esse momento pode ter passado — ou está prestes a passar. Segundo reportagens do PC Gamer, Wccftech e TechPowerUp, a AMD notificou seus parceiros de canal sobre um reajuste de pelo menos 10% nos preços de GPUs e kits de memória, previsto para entrar em vigor em agosto de 2026. A empresa adiou o movimento por cerca de um mês enquanto observava a concorrência, mas a escalada dos custos de DRAM finalmente forçou sua mão. E o pior: a NVIDIA já fez o mesmo. Está ficando caro demais montar ou atualizar um PC gamer.
Não se trata de um capricho corporativo isolado. Há uma cadeia de causas bem documentada por trás desse movimento, e entendê-la é fundamental para saber o que fazer agora — especialmente no Brasil, onde o custo de hardware já é historicamente inflacionado pelos impostos de importação e pela variação cambial. Este artigo vai destrinchar o cenário completo: por que os preços estão subindo, o que muda para cada modelo, como a situação chega ao consumidor brasileiro e qual é a melhor estratégia de compra neste momento.
Por que os preços de GPU estão subindo? A raiz do problema está na DRAM
Placas de vídeo modernas dependem de memória de vídeo — a GDDR6, GDDR6X e GDDR7 — que é fabricada pelos mesmos players que produzem a RAM convencional: Samsung, SK Hynix e Micron. O problema é que a demanda por memória explodiu em múltiplas frentes simultaneamente: servidores de IA consomem quantidades industriais de HBM (High Bandwidth Memory) e GDDR, smartphones de última geração pedem mais RAM a cada ciclo, e os próprios fabricantes de GPUs estão migrando para padrões mais rápidos como o GDDR7.
O resultado é uma escassez global de DRAM que está pressionando os custos ao longo de toda a cadeia produtiva. Segundo o Wccftech, os custos de memória para fabricantes de GPU praticamente dobraram nos últimos meses. A AMD segurou o reajuste por mais tempo que a NVIDIA — aparentemente aguardando para ver se a rival realmente implementaria os aumentos antes de se expor ao desgaste com os parceiros. Com a NVIDIA tendo confirmado seus próprios reajustes, a AMD não tinha mais razão para esperar.
“AMD adiou seu reajuste por um mês, mas o aumento dos custos de DRAM finalmente forçou sua mão — e a NVIDIA já havia aberto o caminho.” — Wccftech
Quanto custa hoje e quanto vai custar: o impacto direto nos modelos AMD
O reajuste de 10% anunciado pela AMD se aplica às GPUs e aos kits de memória vendidos para parceiros (AIBs — fabricantes como Sapphire, PowerColor, XFX, ASUS, Gigabyte). Na prática, isso significa que as placas que chegam às prateleiras com as marcas desses parceiros devem absorver o aumento, repassando-o ao consumidor final. Abaixo, uma estimativa de impacto nos modelos mais relevantes para o mercado brasileiro, com base nos preços médios praticados nos EUA antes do reajuste:
| Modelo AMD | Preço médio atual (EUA) | Estimativa pós-reajuste (+10%) | Estimativa em R$ (câmbio ~5,8) |
|---|---|---|---|
| Radeon RX 9060 XT | ~US$ 299 | ~US$ 329 | ~R$ 1.910 |
| Radeon RX 9070 | ~US$ 449 | ~US$ 494 | ~R$ 2.865 |
| Radeon RX 9070 XT | ~US$ 549 | ~US$ 604 | ~R$ 3.503 |
| Radeon RX 9080 | ~US$ 649 | ~US$ 714 | ~R$ 4.141 |
Importante: os valores em reais são estimativas baseadas no câmbio de referência e não incluem impostos de importação brasileiros (que podem elevar o preço final em 60% a 100% dependendo do canal de compra). Os preços no Brasil tendem a ser significativamente mais altos que a conversão direta sugere.
A NVIDIA já fez o mesmo: o duopólio em ação
O movimento da AMD não acontece no vácuo. A NVIDIA implementou seus próprios reajustes nas semanas anteriores, segundo o PC Gamer. Isso cria um cenário preocupante para o consumidor: quando os dois únicos fabricantes relevantes de GPUs dedicadas sobem preços ao mesmo tempo, não há para onde correr. Intel Arc, a terceira opção do mercado, ainda ocupa uma fatia pequena demais para servir de alternativa real para a maioria dos usuários.
A lógica por trás da espera da AMD é clássica em mercados oligopolizados: nenhuma empresa quer ser a primeira a aumentar preços e perder participação de mercado para o rival. Com a NVIDIA tendo dado o passo, a AMD ganhou cobertura política para fazer o mesmo sem parecer a vilã da história. O resultado prático é que os preços sobem dos dois lados da cerca, e o consumidor paga a conta.
O ângulo brasileiro: impostos, câmbio e a realidade do mercado nacional
Para o consumidor brasileiro, a situação tem camadas adicionais de complexidade. Placas de vídeo importadas já chegam ao Brasil com uma carga tributária que pode variar entre 60% e 100% sobre o valor do produto, dependendo da via de importação (importação formal, compra direta do exterior com DHL/Fedex, ou mercado paralelo). Isso significa que um reajuste de 10% no preço de fábrica pode resultar em aumentos proporcionalmente maiores no preço final ao consumidor.
Além disso, o câmbio adiciona outra camada de incerteza. Com o dólar oscilando entre R$ 5,60 e R$ 5,90 nas últimas semanas, qualquer projeção de preço em reais carrega uma margem de erro considerável. Distribuidoras e varejistas brasileiros costumam trabalhar com dólar travado em contratos de importação, o que significa que os reajustes demoram algumas semanas para chegar às prateleiras — mas chegam.
Quem compra no mercado nacional (lojas físicas e e-commerce brasileiro) deve começar a ver os reflexos do reajuste ao longo de agosto e setembro de 2026. Quem importa diretamente dos EUA já pode encontrar preços mais altos dependendo do varejista americano.
Contexto histórico: esse ciclo já aconteceu antes
Não é a primeira vez que o mercado de GPUs passa por um ciclo de alta de preços puxado por custos de memória. Em 2021 e 2022, a combinação de escassez de chips (causada pela pandemia e pelo boom do mercado de criptomoedas) e alta nos preços de GDDR6 levou a um cenário em que placas de vídeo eram vendidas pelo dobro ou triplo do MSRP (preço sugerido pelo fabricante). O mercado só se normalizou em 2023, quando o hype das criptos caiu e os estoques se recompuseram.
O ciclo atual é diferente em natureza — não é especulação, mas demanda estrutural por memória impulsionada pela IA — mas o efeito no consumidor é similar. A boa notícia é que analistas do setor, como os do Tom’s Hardware, apontam que os preços de DRAM podem cair significativamente em 2027 à medida que novas capacidades de produção entram em operação. Mas esperar um ano e meio com hardware desatualizado é uma decisão que nem todo mundo pode ou quer tomar.
Estratégia de compra: o que fazer agora?
Diante desse cenário, a pergunta prática é: comprar agora, esperar ou mudar de estratégia? A resposta depende do seu perfil e da sua situação atual.
- Se você precisa de GPU agora: compre antes do reajuste chegar ao varejo brasileiro (provavelmente ainda há uma janela de 2 a 4 semanas). Priorize modelos da geração atual com boa relação custo-benefício.
- Se você pode esperar 12-18 meses: a perspectiva de queda nos preços de DRAM em 2027 sugere que o mercado pode se normalizar. Vale a pena aguardar.
- Se você está no meio do caminho: considere o mercado de GPUs usadas — o reajuste nos novos tende a valorizar os seminovos também, mas o movimento é mais lento.
- Se você importa dos EUA: aja rápido. O reajuste já está sendo comunicado aos parceiros e os preços americanos devem subir em breve.
O que isso significa para você
🎮 Gamer: Se a sua GPU atual ainda roda os jogos que você joga em qualidade aceitável, segure o upgrade. O reajuste de 10% em dólar pode virar 15% a 20% em reais depois que câmbio e margens de distribuição são aplicados. Não vale pagar mais por algo que vai ficar mais barato em 2027. Se a sua placa está morta ou travando em 1080p com jogos novos, compre agora — o cenário não vai melhorar no curto prazo.
🎬 Criador de conteúdo: Renderização, edição de vídeo e trabalhos em After Effects dependem de VRAM e potência de shader. Se você está num gargalo real de produtividade, o custo do reajuste provavelmente é menor que o custo de oportunidade de esperar. Avalie modelos com mais VRAM, que tendem a ter vida útil mais longa para cargas de trabalho profissionais.
🤖 Trabalho/IA local: Quem roda modelos de linguagem localmente (LLMs via Ollama, ComfyUI para imagens, etc.) já sabe que VRAM é o recurso mais escasso e valioso. O reajuste torna ainda mais caro o acesso a GPUs com 16 GB ou mais de VRAM. Se você tem orçamento, essa pode ser a última janela para comprar antes dos preços subirem mais.
💰 Custo-benefício: O mercado de placas de vídeo usadas vai ficar mais atrativo com o reajuste nos novos. GPUs da geração anterior (RX 6000, RX 7000, RTX 3000, RTX 4000) seminovas podem representar a melhor relação custo-benefício nos próximos meses. Monitore marketplaces e grupos de compra e venda — o movimento de preços nos novos sempre aquece o mercado de usados com algum delay.
Veredito editorial
A AMD seguindo a NVIDIA nos reajustes de preço é uma notícia ruim, mas não surpreendente. O duopólio do mercado de GPUs dedicadas significa que, quando os custos sobem, não há competição suficiente para absorver o impacto — ele vai direto para o consumidor. O problema estrutural da escassez de DRAM não tem solução rápida, e o Brasil, com sua estrutura tributária pesada sobre eletrônicos importados, sempre amplifica qualquer movimento de preço global.
A mensagem prática é clara: se você tem uma compra planejada para os próximos meses, antecipe-a. Se não tem urgência, espere 2027. E se você está no meio do caminho, o mercado de usados nunca foi tão estratégico quanto agora.



