Doom em tudo: por que o jogo de 1993 roda até em geladeira

Doom em tudo: por que o jogo de 1993 roda até em geladeira

Em 1993, a id Software lançou Doom e redefiniu os jogos eletrônicos para sempre. O que ninguém imaginava é que, três décadas depois, a comunidade global de hackers, engenheiros e entusiastas transformaria esse shooter clássico em algo muito além de um jogo: um teste universal de capacidade computacional. Se um dispositivo tem algum tipo de processador, visor e entrada de dados, alguém, em algum lugar, já tentou rodar Doom nele. E muitas vezes conseguiu.

Geladeira Samsung com tela touchscreen? Feito. Câmera digital de 2003? Feito. Impressora HP de escritório? Feito. Osciloscopio de laboratório? Feito. Teste de gravidez digital? Feito — com ressalvas importantes que vamos detalhar. O fenômeno tem nome: “It runs Doom”, e virou tanto meme cultural quanto indicador técnico sério de até onde a miniaturização e a criatividade humana chegaram.

Por que Doom? O jogo que virou régua técnica

A escolha de Doom não é aleatória nem puramente nostálgica. O jogo original de 1993 foi projetado para rodar em hardware extremamente limitado para os padrões atuais: um Intel 486 a 33 MHz com 4 MB de RAM. Seu motor gráfico, o Doom Engine (internamente chamado de id Tech 1), usa um sistema de renderização 2.5D — tecnicamente bidimensional, mas com truques matemáticos que criam a ilusão de profundidade. Não há cálculo de geometria 3D real, o que reduz drasticamente a demanda computacional.

Além disso, em 1997 a id Software liberou o código-fonte do Doom sob licença aberta. Isso foi revolucionário: de repente, qualquer desenvolvedor podia estudar, modificar e portar o jogo para qualquer plataforma. Surgiram ports oficiais e não oficiais para dezenas de sistemas operacionais, e a comunidade de “source ports” — versões adaptadas do código original — nunca parou de crescer. Projetos como Chocolate Doom, PrBoom+ e GZDoom mantêm o jogo vivo e portável até hoje.

O motor original do Doom precisa de menos de 1 MB de RAM para funcionar em sua versão mais enxuta — o que o torna candidato a rodar em microcontroladores que você encontra em eletrodomésticos.

Os casos reais mais impressionantes (e os que são mito)

Separar o fato verificado da lenda urbana é essencial aqui. Muitos casos têm vídeo, código-fonte publicado e documentação técnica. Outros são exageros ou montagens. Vamos aos confirmados:

  • Impressora HP LaserJet: Em 2014, o pesquisador de segurança Michael Jordon, da Context Information Security, portou Doom para rodar no processador ARM embutido em impressoras HP. O objetivo era demonstrar vulnerabilidades de segurança em dispositivos de rede corporativos — e funcionou como alerta técnico real, além de viralizar.
  • Geladeira Samsung: Modelos da linha Family Hub, com tela touchscreen de 21,5 polegadas rodando Android, foram usados para instalar Doom via sideload (instalação de APK fora da loja oficial). Tecnicamente é um tablet embutido numa geladeira, então o feito é mais simbólico que técnico — mas a imagem de jogar Doom enquanto pega uma cerveja é irresistível.
  • Câmera Kodak DC290: Esse é um clássico da comunidade. A câmera digital de 2001 roda um sistema operacional baseado em Linux e tem um processador MIPS. Entusiastas portaram Doom para ela, com controles adaptados para os botões físicos da câmera.
  • Piano digital: Em 2022, um usuário documentou no Reddit a execução de Doom num teclado musical Yamaha PSR com display LCD, explorando o processador interno do instrumento. O resultado é uma versão em preto e branco, com poucos frames por segundo, mas reconhecível.
  • Relógio Apple Watch: Versões adaptadas do jogo rodam no watchOS via apps não oficiais. A tela minúscula torna a experiência horrível, mas tecnicamente funciona.
  • Calculadora Texas Instruments TI-84: Um dos ports mais antigos e bem documentados. A TI-84 tem processador Z80 a 15 MHz e 24 KB de RAM — e mesmo assim roda uma versão funcional de Doom, lentamente.
Doom já foi registrado rodando nos dispositivos mais improváveis da história da tecnologia
Doom já foi registrado rodando nos dispositivos mais improváveis da história da tecnologia

O teste de gravidez: o caso mais viral — e o mais mal entendido

Em setembro de 2021, um usuário do Twitter com o pseudônimo Foone — engenheiro de hardware e hacker conhecido na comunidade — publicou um vídeo rodando Doom em um teste de gravidez digital. O post explodiu: milhões de visualizações, cobertura em veículos como The Verge, Wired e BBC. Mas o que realmente aconteceu merece uma explicação honesta.

O teste de gravidez digital — especificamente o modelo Clearblue — tem internamente um microcontrolador simples, uma tira reagente e um pequeno display LCD de segmentos (aquele que mostra “Pregnant” ou “Not Pregnant”). Esse microcontrolador é primitivo demais para rodar Doom diretamente: memória insuficiente, sem capacidade gráfica bitmap real.

O que Foone fez foi substituir o microcontrolador original por um Arduino conectado a um display externo, mantendo apenas a carcaça física do teste de gravidez. Tecnicamente, ele rodou Doom num Arduino dentro da carcaça de um teste de gravidez — o que ainda é impressionante, mas é diferente de “o teste de gravidez roda Doom”. Foone foi transparente sobre isso em posts subsequentes, mas a versão simplificada já tinha viralizado. É um caso de texto que o meme superou a realidade técnica, embora a realidade técnica já seja fascinante por si só.

O próprio Foone documentou o processo em detalhes no GitHub e no Twitter, explicando cada etapa do hack. A honestidade técnica dele é parte do que torna a história boa: ele não fingiu que o microcontrolador original rodava o jogo.

A tabela dos dispositivos: o que roda de verdade

DispositivoProcessadorStatusObservação
Impressora HP LaserJetARM (varia por modelo)✅ ConfirmadoPort com código publicado, demo em vídeo
Calculadora TI-84Zilog Z80, 15 MHz✅ ConfirmadoPort antigo, bem documentado
Câmera Kodak DC290MIPS, Linux embarcado✅ ConfirmadoRoda versão completa
Apple WatchApple S-series ARM✅ ConfirmadoVia app não oficial
Piano Yamaha PSRProcessador proprietário✅ ConfirmadoDisplay LCD monocromático
Geladeira Samsung Family HubARM (Android embutido)✅ ConfirmadoTecnicamente é um tablet
Teste de gravidez ClearblueMicrocontrolador simples⚠️ ParcialMCU original substituído por Arduino
ATM (caixa eletrônico)x86 (Windows CE/XP)✅ ConfirmadoVários registros; muitos rodam Windows

Por que isso importa além do meme

O fenômeno “It runs Doom” não é só entretenimento para nerds. Ele revela algo profundo sobre a evolução do hardware e sobre a cultura hacker. Primeiro, demonstra que a capacidade computacional de dispositivos cotidianos cresceu de forma absurda: uma impressora de escritório hoje tem mais poder de processamento do que o PC médio de 1993. Segundo, evidencia vulnerabilidades de segurança reais — o caso da impressora HP foi apresentado em conferências de cibersegurança como prova de que dispositivos de rede corporativos precisam de proteção séria.

O código aberto de Doom, liberado em 1997, é o que torna possível todos esses ports
O código aberto de Doom, liberado em 1997, é o que torna possível todos esses ports

Terceiro, e talvez mais importante, o fenômeno é um termômetro cultural da comunidade maker e de software livre. Quando alguém porta Doom para um dispositivo novo, está demonstrando domínio completo daquele hardware — entendendo o processador, o sistema de memória, o display e as entradas. É uma prova de competência técnica que a comunidade passou a reconhecer como tal. No mundo da eletrônica embarcada, “roda Doom?” virou pergunta semi-séria de benchmark.

No Brasil, a cultura maker tem crescido significativamente com a popularização de plataformas como Arduino e Raspberry Pi — e não faltam brasileiros na comunidade global que já portaram Doom para dispositivos improváveis. Fóruns como o Hardware.com.br e grupos no Discord registram experimentos locais com microcontroladores nacionais e displays de matriz de pontos.

O legado: Doom como linguagem universal da tecnologia

Em 2026, mais de três décadas após seu lançamento, Doom continua sendo portado para novos dispositivos regularmente. A comunidade mantém uma lista colaborativa online — o site itrunsdoom.tumblr.com e threads no Reddit documentam novos casos constantemente. Recentemente, ports foram registrados em chips ESP32 (microcontrolador Wi-Fi barato e popular no Brasil para projetos IoT), em displays de crachás eletrônicos de conferências e até em osciloscópios digitais modernos.

A id Software, hoje parte da Bethesda/Microsoft, nunca tentou impedir esses ports — pelo contrário, a empresa sempre demonstrou orgulho pelo fenômeno. John Romero e John Carmack, co-criadores do jogo, já comentaram publicamente sobre ports específicos com admiração. A decisão de Carmack de abrir o código em 1997 foi, sem exagero, um dos atos mais impactantes da história do software livre para jogos.

Existe até uma lógica filosófica no fenômeno: se um dispositivo é poderoso o suficiente para rodar Doom, ele tem capacidade computacional real e programável. Se não consegue, ainda está no limiar do que chamamos de “computador”. Doom virou, acidentalmente, a linha de Turing informal do hardware embarcado — não porque foi planejado assim, mas porque a combinação de código aberto, requisitos mínimos baixos e reconhecimento cultural criou o benchmark perfeito.

“Se roda Doom, é um computador.” A frase, repetida na comunidade tech há anos, resume por que um jogo de 1993 ainda define os limites da computação moderna.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual é o dispositivo mais fraco em que Doom já rodou de verdade?

A calculadora Texas Instruments TI-84 é um dos candidatos mais impressionantes: processador Z80 a 15 MHz e apenas 24 KB de RAM. O jogo roda lentamente, mas de forma reconhecível. Há também ports para microcontroladores ESP32, que custam menos de R$ 30 e são populares em projetos maker no Brasil.

O teste de gravidez realmente rodou Doom?

Parcialmente. O engenheiro Foone substituiu o microcontrolador original do teste Clearblue por um Arduino, mantendo apenas a carcaça. O MCU original é simples demais para rodar o jogo. Foone foi transparente sobre isso, mas a versão simplificada viralizou antes da explicação técnica completa.

Por que o código do Doom foi liberado?

John Carmack liberou o código-fonte do Doom em 1997 sob licença que permitia uso não comercial. Em 1999, a licença foi atualizada para a GPL (GNU General Public License), tornando o código completamente aberto. A decisão foi motivada pela filosofia de software livre de Carmack e pelo desejo de preservar o legado do jogo.

Existe algum dispositivo famoso que tentaram, mas não conseguiram rodar Doom?

O microcontrolador original do teste de gravidez Clearblue é o exemplo mais famoso de hardware que não conseguiu — daí a necessidade de substituí-lo. Dispositivos com menos de 512 bytes de RAM e sem capacidade de endereçamento de memória bitmap geralmente ficam fora do alcance, mesmo com versões ultraminimizadas do jogo.

Da geladeira ao teste de gravidez, de impressoras a pianos, Doom transcendeu o entretenimento e se tornou parte da linguagem da engenharia. É o jogo que, inadvertidamente, ensina mais sobre processadores, memória e programação embarcada do que muitos cursos técnicos. E enquanto existir um chip novo no mundo, alguém vai tentar rodar Doom nele.

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