A origem do pen drive e por que o disquete demorou a morrer

A origem do pen drive e por que o disquete demorou a morrer

Você provavelmente já jogou fora um pen drive com mais facilidade do que jogaria uma moeda de dez centavos. Hoje ele é descartável, barato e onipresente — mas há menos de 25 anos, transferir arquivos entre computadores exigia carregar um disco de plástico flexível que cabia menos de 1,5 MB e quebrava com uma frequência impressionante. O que é mais curioso, porém, não é o surgimento do pen drive: é o fato de que, mesmo depois de ele existir, o disquete sobreviveu por quase uma década. Por quê? A resposta diz muito sobre como a tecnologia realmente muda — muito mais devagar do que a gente imagina.

A história do pen drive — tecnicamente chamado de USB flash drive — começa com uma disputa de patente que ainda hoje não tem um vencedor claro. E esse detalhe já é suficiente para mostrar que a narrativa popular simplifica demais uma invenção que foi, na prática, simultânea em pelo menos três países diferentes.

Quem inventou o pen drive? A guerra das patentes que ninguém venceu

A versão mais difundida credita a invenção ao israelense Dov Moran, da empresa M-Systems, que registrou uma patente para o dispositivo em abril de 1999 e lançou o produto comercialmente em 2000 sob o nome DiskOnKey, em parceria com a IBM. Com 8 MB de capacidade — o equivalente a cerca de cinco disquetes —, ele era vendido nos Estados Unidos por volta de 50 dólares. Não era barato, mas funcionava: plugava na porta USB, não precisava de driver no Windows 98 SE em diante, e não tinha partes móveis que pudessem quebrar.

O problema é que, quase ao mesmo tempo, o inventor sino-canadense Pua Khein-Seng, da empresa Phison Electronics, registrou uma patente similar em Taiwan. E uma empresa chamada Trek Technology, de Singapura, lançou seu próprio produto — o ThumbDrive — em janeiro de 2000, possivelmente antes do DiskOnKey chegar às prateleiras. A Trek chegou a vencer uma disputa judicial no Reino Unido contra a M-Systems. Nos Estados Unidos, a batalha legal se arrastou por anos sem conclusão definitiva. Até hoje, dependendo do país e da fonte consultada, o “inventor” muda. O que é verificável e consensual: todos os produtos usavam o padrão USB 1.1 e memória NAND flash, e todos apareceram entre 1999 e 2000.

O primeiro pen drive comercial tinha 8 MB de capacidade. Um pen drive básico de 2026 tem, no mínimo, 16.000 vezes mais espaço — e custa menos.

O que tornou o pen drive possível: a memória NAND flash

Para entender o pen drive, é preciso entender a tecnologia que o sustenta. A memória NAND flash foi inventada pelo engenheiro japonês Fujio Masuoka, da Toshiba, em 1987 — e o nome “flash” foi sugerido por um colega porque o processo de apagar dados lembrava o flash de uma câmera fotográfica. Diferente da memória RAM, a NAND flash é não volátil: ela retém os dados mesmo sem energia elétrica. Diferente de um HD, não tem partes mecânicas. Essa combinação era o Santo Graal do armazenamento portátil.

Durante os anos 1990, a NAND flash já existia em cartões de memória para câmeras digitais e palmtops. O que faltava era o encaixe universal. A porta USB, padronizada em 1996 e popularizada com o iMac G3 de 1998 (que eliminou as portas legadas de vez), forneceu exatamente isso: um conector que qualquer computador teria. A combinação NAND flash + USB foi o casamento que criou o pen drive.

DiskOnKey de primeira geração ao lado de um disquete 3,5
DiskOnKey de primeira geração ao lado de um disquete 3,5″ — dois mundos em transição

O disquete: uma tecnologia que se recusou a morrer

O disquete de 3,5 polegadas — aquele da caixinha rígida de plástico cinza — foi lançado pela Sony em 1981 e padronizado ao longo dos anos 1980. Na sua versão mais comum, o HD (High Density) de dupla face, ele armazenava 1,44 MB. Para a época, era revolucionário. Para os anos 2000, era uma piada — mas uma piada que o mundo corporativo levou muito a sério por muito tempo.

Quando o pen drive chegou ao mercado, o disquete ainda dominava por razões que vão muito além da tecnologia em si. Primeiro: infraestrutura instalada. Empresas, escolas, repartições públicas e gráficas tinham milhões de drives de disquete em funcionamento. Trocar tudo isso custava dinheiro que ninguém queria gastar. Segundo: compatibilidade e confiança. O disquete funcionava em qualquer PC desde o DOS. O pen drive exigia USB — e em 2000, muitos computadores corporativos ainda rodavam Windows NT ou 95, sem suporte nativo a USB storage. Terceiro: preço. Um disquete custava centavos; um pen drive de 8 MB custava o equivalente a 50 dólares.

CaracterísticaDisquete 3,5″ (1,44 MB)Pen Drive (2000, 8 MB)Pen Drive (2026, 128 GB)
Capacidade1,44 MB8 MB128 GB+
Preço médio (lançamento/época)~R$ 1–2 (unitário)~US$ 50~R$ 30–50
Partes móveisSimNãoNão
Necessita driver (Win XP+)NãoNãoNão
Durabilidade médiaBaixa (campo magnético, umidade)AltaAlta

Há também um fator cultural que raramente é mencionado: o disquete era o ícone universal de “salvar”. Literalmente — o símbolo de salvar arquivo em praticamente todo software dos anos 1990 e 2000 era um disquete. Essa onipresença visual criava uma inércia psicológica real. As pessoas confiavam no disquete porque o conheciam.

O golpe de misericórdia: Apple, Windows XP e o fim da era do disquete

Dois eventos aceleraram a morte do disquete de forma decisiva. O primeiro foi a Apple: quando Steve Jobs lançou o iMac G3 em 1998, ele simplesmente removeu o drive de disquete da máquina. A decisão foi ridicularizada na imprensa especializada da época — e provou ser visionária. O iMac tinha USB e CD-ROM; quem precisasse de disquete que comprasse um drive externo. A mensagem era clara: o futuro não tinha disquete.

O segundo evento foi o Windows XP, lançado em 2001. Pela primeira vez, um sistema operacional Windows reconhecia pen drives automaticamente, sem necessidade de instalar drivers manualmente. Plug and play de verdade. Com o XP se espalhando pelo mundo corporativo ao longo de 2002 e 2003, a barreira técnica do pen drive desapareceu. A capacidade dos dispositivos crescia rápido e o preço despencava: em 2003, um pen drive de 256 MB custava menos de 50 dólares — dezessete vezes mais capacidade pelo mesmo preço de três anos antes.

O iMac G3 de 1998 foi o primeiro grande computador a eliminar o drive de disquete
O iMac G3 de 1998 foi o primeiro grande computador a eliminar o drive de disquete

Ainda assim, o disquete não morreu imediatamente. A Sony — irônica, já que havia inventado o formato — só encerrou a produção de disquetes de 3,5″ em 2011. No Brasil, o Governo Federal usou disquetes em sistemas de declaração de imposto de renda até o começo dos anos 2000, e algumas prefeituras e cartórios mantiveram leitores de disquete operacionais por anos depois disso. No Japão, agências governamentais ainda aceitavam disquetes como mídia oficial até meados dos anos 2000. E, de forma quase inacreditável, sistemas críticos de infraestrutura — como controladores de usinas nucleares e sistemas de aviónica mais antigos — continuaram usando disquetes até muito recentemente, simplesmente porque a certificação e o custo de substituição tornavam a troca inviável.

O legado: o ícone que sobreviveu ao objeto

Existe uma geração inteira que nunca tocou em um disquete, mas reconhece o ícone de salvar imediatamente. Esse é talvez o legado mais estranho e fascinante de toda essa história: o disquete morreu como objeto, mas sobreviveu como símbolo — presente em Microsoft Office, Adobe Photoshop, LibreOffice e dezenas de outros softwares até hoje. Em 2026, crianças de dez anos sabem que aquele quadradinho significa “salvar”, mas não fazem a menor ideia do que ele representa fisicamente.

O pen drive, por sua vez, já está vivendo seu próprio crepúsculo. A nuvem, os SSDs ultrarrápidos e o compartilhamento por Wi-Fi e cabo USB-C tornaram o pen drive cada vez mais desnecessário para transferências cotidianas. A Apple voltou a fazer história removendo a entrada USB-A do MacBook em 2015 — a mesma porta que havia salvado o pen drive. A história se repete, e a tecnologia que parecia indispensável se torna obsoleta antes que a gente perceba.

A trajetória do pen drive — de invenção disputada por três países, passando pela resistência inesperada de um disco magnético de 1,44 MB, até virar item descartável em gavetas — é um lembrete perfeito de que a tecnologia não avança em linha reta. Ela avança quando os fatores econômicos, culturais e de infraestrutura se alinham. E às vezes isso leva uma década.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quem foi o verdadeiro inventor do pen drive?

Não há um único inventor reconhecido universalmente. Dov Moran (M-Systems/Israel), a Trek Technology (Singapura) e Pua Khein-Seng (Phison/Taiwan) registraram patentes e lançaram produtos similares entre 1999 e 2000. Disputas judiciais em vários países nunca chegaram a um vencedor definitivo.

Quando o disquete foi oficialmente descontinuado?

A Sony, inventora do formato de 3,5 polegadas, encerrou a produção de disquetes em 2011. No entanto, alguns sistemas industriais e governamentais ao redor do mundo continuaram usando a mídia por anos após essa data.

Por que o Windows 98 não reconhecia pen drives automaticamente?

O Windows 98 (primeira edição) não tinha suporte nativo a dispositivos de armazenamento USB em massa. O Windows 98 SE adicionou suporte parcial, mas foi o Windows XP, em 2001, que trouxe reconhecimento automático e sem drivers adicionais, derrubando a principal barreira de adoção do pen drive.

O ícone de ‘salvar’ ainda é um disquete nos softwares modernos?

Sim. Em 2026, a maioria dos softwares — incluindo Microsoft Office e Adobe Photoshop — ainda usa o ícone do disquete de 3,5″ para representar a função de salvar. É um dos casos mais curiosos de símbolo que sobreviveu ao objeto que o inspirou.

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