Sony vai abandonar discos no PS6: o fim de uma era em 2028

Sony vai abandonar discos no PS6: o fim de uma era em 2028

A Sony confirmou o que muitos temiam e poucos queriam acreditar: o PlayStation 6 será totalmente sem leitor de disco, marcando o fim definitivo do formato físico na linha principal de consoles da empresa. A decisão, que segundo o Wccftech pegou de surpresa até ex-executivos da própria PlayStation, deve entrar em vigor em 2028 — e promete gerar uma das maiores polêmicas do mercado de games nos próximos anos. Para o consumidor brasileiro, o impacto é ainda mais direto e doloroso.

Shawn Layden, ex-presidente da Sony Interactive Entertainment America, foi um dos que ficaram surpresos. Em fevereiro de 2025, ele havia declarado publicamente que não acreditava que a Sony daria esse passo. Agora, confrontado com a realidade, o executivo mudou o tom: segundo o Wccftech, Layden classificou o corte dos discos em 2028 como um “golpe significativo à marca”. Quando alguém de dentro da casa fala assim, vale prestar atenção.

Mas o que exatamente está em jogo aqui? A resposta vai muito além de uma questão de nostalgia ou preferência pessoal. Envolve preço de jogos, revenda, acesso à biblioteca histórica, infraestrutura de internet e — especialmente no Brasil — uma realidade econômica que torna o digital muito menos atraente do que parece no papel.

O histórico: como chegamos até aqui

A Sony já havia dado sinais claros dessa direção. O PS5 Slim lançado em 2023 introduziu uma versão sem drive de disco como modelo padrão, com a opção de adicionar um leitor externo vendido separadamente. A estratégia funcionou como um teste de mercado — e, aparentemente, os números foram satisfatórios o suficiente para a empresa decidir cortar o cordão de vez na próxima geração.

A Microsoft, por sua vez, já caminhou nessa direção com o Xbox Series S, que desde 2020 é 100% digital. A diferença é que a MS manteve o Series X com disco como opção premium. A Sony parece disposta a não oferecer essa alternativa no PS6 — ao menos não em um modelo principal com leitor integrado de fábrica.

O PS6 deve chegar em 2028 sem nenhum leitor de disco integrado
O PS6 deve chegar em 2028 sem nenhum leitor de disco integrado

O argumento da Sony — e os furos nele

A lógica corporativa por trás da decisão é conhecida: jogos digitais têm margens maiores para a Sony (sem custo de fabricação de mídia, logística ou participação do varejo), o mercado digital cresceu consistentemente, e a infraestrutura de internet melhorou globalmente. Tudo isso é verdade — mas esconde convenientemente os problemas reais para o consumidor.

“O corte dos discos em 2028 é um golpe significativo à marca PlayStation.” — Shawn Layden, ex-presidente da Sony Interactive Entertainment America

Num ecossistema 100% digital, você não possui o jogo — você possui uma licença. Isso significa que, se a Sony fechar uma loja, descontinuar um título ou mudar os termos de serviço, seu acesso pode ser revogado. Já vimos isso acontecer: a Sony tentou fechar a PS Store do PS3 e PS Vita em 2021, recuando apenas após pressão massiva da comunidade. Com o PS6 sem disco, não haverá recuo possível.

Além disso, o mercado de revenda e o acesso a jogos usados — que historicamente barateou o custo de entrada no hobby para milhões de jogadores — desaparece completamente. Sem disco, não há GameStop, não há Enjoei, não há amigo emprestando o jogo. É comprar pelo preço cheio ou não jogar.

O ângulo brasileiro: por que aqui dói mais

Para o consumidor brasileiro, a transição para o digital puro é particularmente problemática por uma série de razões estruturais que a Sony — empresa japonesa tomando decisões pensando em mercados como EUA, Europa e Japão — provavelmente não pondera com o devido peso.

Primeiro, o preço. Jogos na PSN brasileira são precificados em dólares americanos convertidos para reais, sujeitos a variações cambiais e à tributação sobre serviços digitais. Um lançamento AAA que custa US$ 70 pode facilmente chegar a R$ 400–R$ 450 no Brasil. No mercado físico, a concorrência entre lojas e a possibilidade de importação criam pressão de preço. No digital, a Sony dita as regras sozinha.

Segundo, a internet. Apesar dos avanços, boa parte do Brasil ainda enfrenta conexões instáveis, com dados limitados ou velocidades insuficientes para downloads de 100 GB+ que jogos modernos exigem. Quem mora fora dos grandes centros urbanos sente isso na pele. Um disco resolve o problema de download; o digital, não.

Terceiro, a revenda. O mercado de jogos físicos usados no Brasil é robusto. Plataformas como Mercado Livre, OLX e lojas especializadas permitem que jogadores vendam títulos após terminar e usem o dinheiro para comprar o próximo. Com o digital, esse ciclo acaba. O jogo que você comprou por R$ 400 não tem valor de revenda — é seu para sempre, ou até a licença expirar.

AspectoMídia FísicaDigital (PS6)
Preço de lançamento (estimado)R$ 299–R$ 349 (varejo competitivo)R$ 400–R$ 450 (PSN, câmbio)
Revenda após usoSim (Mercado Livre, lojas)Não
Acesso sem internetSim (offline total)Limitado (verificação periódica)
Risco de perda de acessoBaixo (disco físico)Alto (depende da loja/licença)
Compatibilidade futuraDepende de retrocompatibilidadeDepende da Sony manter servidores
Download necessárioParcial (patches)Total (60–150 GB+)

Compatibilidade retroativa: o elefante na sala

Uma das grandes questões ainda sem resposta é o que acontece com a biblioteca física de PS4 e PS5. Se o PS6 não tem leitor, jogos em disco dessas gerações simplesmente não funcionam — a menos que a Sony ofereça algum tipo de solução, como um drive externo opcional (como fez com o PS5 Slim) ou um programa de upgrade digital.

O precedente do PS5 Slim sugere que pode haver um acessório vendido separadamente, mas isso adiciona custo e complexidade. E mesmo que exista, a mensagem ao consumidor é clara: sua coleção física está com prazo de validade. Quem tem prateleiras de jogos de PS1 a PS5 começa a ver o fim da linha.

O fim dos discos significa o fim da revenda, da posse real e da biblioteca física
O fim dos discos significa o fim da revenda, da posse real e da biblioteca física

A concorrência e o que isso significa para o mercado

A Nintendo, curiosamente, ainda aposta em cartuchos físicos. O Switch 2, lançado em 2025, manteve o formato de cartucho — menor, mais prático, mas ainda físico. Isso posiciona a Nintendo como a única grande fabricante a preservar a mídia física de forma nativa no hardware principal.

A Microsoft, com o Game Pass, já mudou o paradigma de outra forma: em vez de comprar jogos, você assina um serviço. O Xbox Series S digital foi desenhado exatamente para esse ecossistema. A Sony tem o PS Plus, mas ele nunca teve a profundidade de catálogo do Game Pass — e com o PS6 sem disco, a pressão sobre o PS Plus para entregar valor real vai aumentar muito.

Se a Sony não melhorar substancialmente o PS Plus até 2028, o consumidor brasileiro vai se perguntar por que pagar R$ 400 por um jogo que não pode revender, de uma plataforma que não tem serviço de assinatura competitivo. Essa é uma equação difícil de resolver.

O que isso significa para você

A decisão da Sony de eliminar os discos no PS6 não é neutra — e o impacto varia bastante dependendo do seu perfil como jogador:

  • Gamer casual (1–3 jogos por ano): Você provavelmente vai sentir no bolso. Sem revenda e sem pressão competitiva de preço, espere pagar mais por cada título. Fique de olho em promoções da PSN e considere o PS Plus se os jogos do serviço cobrirem seu gosto.
  • Gamer heavy (colecionador, retrocompatibilidade): É o perfil mais prejudicado. Sua coleção física existente pode ficar sem suporte nativo, e a ideia de “possuir” jogos muda radicalmente. Vale monitorar se a Sony vai oferecer drive externo e a que preço.
  • Família com crianças: O mercado de jogos usados era uma forma acessível de manter as crianças entretidas sem gastar fortunas. Com o digital puro, esse caminho fecha. O PS Plus pode ser uma alternativa, mas depende do catálogo disponível.
  • Quem está decidindo entre PS6 e Xbox: Se retrocompatibilidade física e preço de jogos são prioridades, o ecossistema Xbox (com Game Pass e opções com disco) pode se tornar mais atraente. A decisão da Sony abre espaço para a Microsoft ganhar terreno no Brasil.
  • Quem tem internet limitada/instável: O PS6 sem disco pode simplesmente não ser uma opção viável. Downloads de 100 GB+ em conexões lentas ou com franquia de dados limitada tornam a plataforma praticamente inutilizável para novos lançamentos.

Veredito editorial

A decisão da Sony é compreensível do ponto de vista de negócios — margens maiores, controle do ecossistema, simplificação do hardware. Mas ela transfere custos e riscos significativos para o consumidor, especialmente o brasileiro. Quando até um ex-executivo da própria empresa chama de “golpe significativo à marca”, não é exagero afirmar que a Sony está apostando alto em algo que pode alienar uma parcela importante de seu público fiel.

Ainda há tempo até 2028 para a Sony apresentar soluções que amenizem o impacto — um drive externo acessível, um PS Plus reformulado com catálogo robusto, preços regionais mais justos na PSN. Mas se o PS6 chegar ao Brasil apenas com a proposta de “compre digital pelo preço cheio, sem revenda, sem backup físico”, a resistência do mercado pode ser maior do que a empresa espera. O Brasil não é o Japão, e o consumidor daqui tem opções — inclusive a de simplesmente não comprar.

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