Doom em tudo: por que o clássico roda em geladeiras e testes de gravidez

Doom em tudo: por que o clássico roda em geladeiras e testes de gravidez

Um teste de gravidez digital exibindo demônios sendo fuzilados. Uma geladeira Samsung navegando pelos corredores do inferno. Um aparelho de ressonância magnética hospitalar rodando o jogo mais icônico dos anos 1990. Parece absurdo — e é, deliberadamente. Mas há uma lógica rigorosa por trás de cada uma dessas façanhas, e entendê-la revela muito sobre como o hardware e o software evoluíram nas últimas três décadas. Bem-vindo ao fenômeno “It runs Doom”, o meme técnico mais duradouro da história da computação.

Desde que id Software lançou o jogo original em dezembro de 1993, programadores ao redor do mundo transformaram a pergunta “será que roda Doom?” em uma espécie de rito de passagem. Não é brincadeira sem propósito: o desafio expõe princípios reais de engenharia de software, portabilidade de código e os limites — ou a ausência deles — do hardware moderno. Em 2026, a lista de dispositivos que já rodaram Doom inclui mais de cem plataformas documentadas, e continua crescendo.

O código que tornou tudo isso possível

Para entender por que Doom especificamente virou esse símbolo, é preciso voltar à decisão técnica que John Carmack tomou em 1997: liberar o código-fonte do jogo original sob licença livre (eventualmente GPL, em 1999). Essa escolha foi revolucionária. De repente, qualquer programador do planeta podia estudar, modificar e portar o motor para qualquer plataforma imaginável. O código do Doom original é notavelmente enxuto — o executável base ocupa menos de 1 MB — e foi escrito em C padrão, uma linguagem que compila para praticamente qualquer arquitetura existente.

O motor original exige, em sua forma mínima, algo em torno de 4 MB de RAM, capacidade de desenhar pixels numa tela e alguma forma de receber input do jogador. Esses requisitos modestos são, paradoxalmente, o que torna o desafio tão fértil: em 2026, praticamente qualquer dispositivo eletrônico com um microcontrolador decente supera esse limiar com sobra. A questão não é mais “tem poder suficiente” — é “alguém teve paciência e criatividade para fazer funcionar”.

O Doom original de 1993, o ponto de partida de tudo
O Doom original de 1993, o ponto de partida de tudo

Os casos mais absurdos — e verificados

A internet está cheia de alegações sobre Doom rodando nos lugares mais improváveis, mas é importante separar o que é documentado do que é lenda. Abaixo estão casos com evidências públicas — vídeos, posts técnicos ou cobertura jornalística verificável:

  • Teste de gravidez Clearblue (2021): O engenheiro Foone Turing desmontou um teste de gravidez digital e descobriu um microcontrolador com display LCD. Ele substituiu o firmware original e conseguiu exibir o jogo na minúscula tela — com controles externos, claro. O post viralizou no Twitter e foi amplamente coberto por veículos como The Verge e Kotaku. O display tem resolução de apenas 128×32 pixels, mas é inegavelmente Doom.
  • Geladeira Samsung Family Hub: Esses refrigeradores têm um painel touchscreen Android embutido para exibir receitas e fazer videochamadas. Como roda Android, roda APKs — e, portanto, roda o port de Doom para Android sem modificações profundas. Vídeos do feito circulam desde 2019.
  • Câmera de impressão digital (iPod Nano, calculadoras): Calculadoras Texas Instruments TI-83 e TI-84 têm ports funcionais de Doom há anos, aproveitando o processador Zilog Z80 de 6 MHz. Lento, mas funcional.
  • Ressonância magnética: Em 2014, um técnico de hospital postou um vídeo de Doom rodando no console de controle de um equipamento de MRI — que roda Windows XP por baixo dos panos. Tecnicamente é um PC disfarçado, mas o contexto é delicioso.
  • Trator John Deere: Tratores modernos têm computadores de bordo sofisticados. Hackers do movimento “direito ao reparo” portaram Doom para os terminais de alguns modelos John Deere como demonstração política — provando que o hardware é poderoso o suficiente para ser reparado e modificado pelos próprios proprietários.
  • Câmera digital e piano digital: Ambos documentados com vídeo. O piano Yamaha Disklavier, que tem um processador interno para gravar e reproduzir músicas, foi hackeado para rodar Doom usando as teclas como controles.

“Se tem um processador e uma tela, alguém já tentou rodar Doom nele — e provavelmente conseguiu.”

Máxima não oficial da comunidade de programadores, verificada empiricamente centenas de vezes

A tabela do impossível: hardware vs. requisitos

DispositivoProcessadorRAM disponívelRoda Doom?
Teste de gravidez ClearblueMicrocontrolador 8-bit ~1 MHz~128 bytesSim (versão simplificada, display 128×32)
Calculadora TI-84Zilog Z80 6 MHz128 KBSim (port dedicado)
Geladeira Samsung Family HubARM quad-core (Android)2 GBSim (APK padrão)
Trator John Deere (modelos recentes)ARM embarcado512 MB+Sim (port demonstrativo)
PC original de 1993 (486 DX2 66 MHz)Intel 4864 MBSim (plataforma original)
Apple Watch Series 9Apple S9 dual-core64 MBSim (port watchOS)

O caso do teste de gravidez merece uma nota técnica extra. Foone Turing deixou claro que o dispositivo original não tem memória suficiente para rodar o Doom completo — o que ele fez foi criar uma versão radicalmente simplificada que exibe sprites do jogo e responde a inputs. Não é o Doom completo com todos os níveis, mas é reconhecível e funcional dentro das limitações. Isso importa: a honestidade técnica é o que separa o feito genuíno do clickbait.

O fenômeno
O fenômeno “It runs Doom”: de testes de gravidez a tratores

Por que Doom e não outro jogo?

A pergunta é legítima. Existem jogos mais simples (Pong, Tetris) e mais modernos. Mas Doom ocupa um ponto ideal na curva: é complexo o suficiente para impressionar — tem gráficos 3D (tecnicamente pseudo-3D com o motor BSP de Carmack), áudio, múltiplos inimigos com IA básica e fases elaboradas — mas enxuto o suficiente para ser portado com esforço razoável. Rodar Tetris num microcontrolador é interessante. Rodar Doom é impressionante.

Há também o fator cultural. Doom foi o jogo que popularizou o FPS (first-person shooter, ou atirador em primeira pessoa), vendeu mais de 3,5 milhões de cópias nos primeiros dois anos e foi instalado em mais computadores nos anos 1990 do que o Windows 95, segundo estimativa da própria id Software na época. Ele está enraizado no imaginário coletivo da tecnologia de uma forma que nenhum outro título conseguiu replicar. Quando alguém vê Doom rodando numa geladeira, o reconhecimento é imediato — e o absurdo, hilário.

O legado técnico: portabilidade como filosofia

O fenômeno “It runs Doom” não é só entretenimento de nicho. Ele ilustra um princípio de engenharia que moldou décadas de desenvolvimento de software: a importância de escrever código portável, modular e com dependências mínimas de hardware específico. O motor do Doom original abstrai o hardware por trás de camadas de código — a parte que desenha pixels é separada da lógica do jogo, que é separada do sistema de áudio. Essa arquitetura, que Carmack adotou por necessidade nos anos 1990, é hoje considerada boa prática universal.

Projetos como o Chocolate Doom e o PrBoom+ mantêm ports ativos e atualizados do código original, servindo tanto como preservação histórica quanto como base para novos ports exóticos. Em 2026, a comunidade em torno desses projetos ainda é ativa, com novos ports surgindo regularmente — recentemente em microcontroladores ESP32, que custam menos de R$ 30 no Brasil e têm poder suficiente para rodar uma versão funcional do jogo.

O ângulo brasileiro: Doom no ESP32 por menos de R$ 30

Para o público brasileiro, o aspecto mais acessível do fenômeno está justamente nesses microcontroladores baratos. O ESP32, fabricado pela Espressif e amplamente disponível em lojas de eletrônica e no Mercado Livre por valores entre R$ 20 e R$ 40, já tem ports documentados de Doom funcionando com display TFT pequeno acoplado. Canais brasileiros de eletrônica no YouTube já reproduziram o feito, e os arquivos de projeto são abertos. É um exercício excelente para estudantes de engenharia e entusiastas de hardware — e custa menos que um lanche.

A ironia maior é que, enquanto debatemos se os jogos AAA de 2026 rodam bem em placas de vídeo de última geração com dezenas de gigabytes de VRAM, um jogo de 1993 continua encontrando novos lares em chips que custam moedas. Isso diz algo profundo sobre eficiência de código — e sobre o quanto software moderno frequentemente desperdiça os recursos que tem disponíveis.

O que vem a seguir nessa corrida

A comunidade já estabeleceu uma hierarquia informal de dificuldade para ports de Doom. Rodar num Android é trivial. Num Raspberry Pi Zero, simples. Num ATmega328 (o chip do Arduino Uno básico), desafiador mas documentado. Num display de calculadora gráfica, complexo. Num teste de gravidez, quase absurdo. O próximo horizonte que entusiastas perseguem inclui displays de cartões de crédito com chip NFC, relógios analógicos com ponteiros digitais e — o Santo Graal atual — rodar Doom dentro de uma partida de Minecraft, usando os blocos do jogo como pixels. Esse último já foi parcialmente demonstrado, com scripts que mapeiam o estado do jogo em tempo real para uma “tela” de blocos coloridos.

Trinta e dois anos depois do lançamento original, Doom continua sendo a régua com que medimos o impossível em hardware. Toda vez que um novo dispositivo aparece — seja um óculos de realidade aumentada, um chip implantável ou um processador experimental — a pergunta surge inevitável: mas roda Doom? E na maioria das vezes, a resposta acaba sendo sim.

Perguntas frequentes (FAQ)

Doom realmente rodou num teste de gravidez?

Sim, mas com ressalvas. O engenheiro Foone Turing modificou um teste de gravidez digital Clearblue em 2021, substituindo o firmware para exibir sprites do Doom no display LCD. Não é o jogo completo — a memória do dispositivo é insuficiente — mas é uma versão reconhecível e funcional, documentada em vídeo e coberta por The Verge e Kotaku.

Por que Doom e não outro jogo mais simples, como Pong?

Doom ocupa o ponto ideal: é complexo o suficiente para impressionar (gráficos pseudo-3D, IA de inimigos, áudio) mas enxuto o suficiente para ser portado com esforço razoável. Além disso, seu código-fonte foi liberado em 1999 sob licença GPL, permitindo que qualquer programador o adapte legalmente para qualquer plataforma.

Posso rodar Doom num ESP32 comprado no Brasil?

Sim. O microcontrolador ESP32, disponível por R$ 20 a R$ 40 em lojas de eletrônica e no Mercado Livre, já tem ports documentados de Doom funcionando com um display TFT acoplado. Os projetos são abertos e há tutoriais em português no YouTube — é um exercício acessível para entusiastas de hardware e estudantes de engenharia.

Qual é o dispositivo mais absurdo em que Doom já rodou de forma verificada?

O teste de gravidez Clearblue modificado por Foone Turing em 2021 é provavelmente o caso mais extremo documentado. O display tem apenas 128×32 pixels e o microcontrolador original opera em frequências de MHz simples — tornar qualquer coisa jogável ali é uma façanha de engenharia reversa e otimização.

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