O mercado de memória RAM está vivendo um pesadelo que parecia impossível há poucos anos. Segundo análise publicada pelo PC Gamer, um pesquisador afirmou que o setor “simplesmente desfez cerca de 20 anos de progresso” nos preços de memória — e os números confirmam: kits de RAM que custavam frações do salário mínimo há dois anos agora rivalizam com os preços, em termos relativos, praticados lá em 2007. Para quem está montando ou atualizando um PC gamer no Brasil, isso se traduz em dor direta no bolso, com impacto direto também no custo de notebooks e até nos próximos iPhones.
O timing não poderia ser pior. Estamos em agosto de 2026, e a crise de memória coincide com um momento em que jogos AAA exigem cada vez mais RAM, sistemas operacionais com IA integrada consomem mais recursos, e o dólar segue pressionado para o consumidor brasileiro. A tempestade perfeita chegou — e entender o que causou isso, quanto vai durar e o que fazer é o que separa quem compra bem de quem paga caro por impulso.
O que aconteceu com os preços de RAM?
A indústria de memória é historicamente cíclica: períodos de superprodução derrubam preços, fabricantes cortam investimentos, a oferta encolhe e os preços disparam. O que torna o ciclo atual particularmente severo é a convergência de múltiplos fatores simultâneos. A explosão da demanda por IA generativa consumiu enormes volumes de HBM (High Bandwidth Memory) e LPDDR5X, desviando capacidade fabril das memórias DDR5 convencionais para PC. Ao mesmo tempo, a transição da indústria de DDR4 para DDR5 criou um vácuo de oferta — as linhas de produção antigas foram reconvertidas antes que as novas atingissem plena capacidade.
O resultado é visível nos dados compilados pelo PC Gamer: kits DDR5 de 32 GB que chegaram a custar menos de US$ 60 em 2024 voltaram a superar US$ 120 em muitos mercados. A comparação com 2007 é metodologicamente interessante — naquele ano, 2 GB de DDR2 custavam cerca de US$ 100, o que em poder de compra ajustado pela inflação equivale a valores ainda maiores hoje. Mas o ponto central do pesquisador não é a equivalência nominal: é que a queda histórica de custo por gigabyte, uma das curvas mais consistentes da tecnologia, foi revertida de forma abrupta e significativa.

DDR4 vs. DDR5: a transição que ficou cara
Para entender o impacto real, é preciso separar os dois mercados. A DDR4, tecnologia de 2014 que ainda domina grande parte dos PCs em uso no mundo, sofreu menos — há estoque acumulado e as linhas de produção são antigas e amortizadas. Já a DDR5, padrão obrigatório para plataformas Intel Core de 12ª geração em diante e AMD Ryzen 7000/9000, é onde a crise morde com mais força.
| Memória | Capacidade | Preço médio (EUA) — Jan/2025 | Preço médio (EUA) — Ago/2026 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| DDR4-3200 | 16 GB (2×8) | ~US$ 35 | ~US$ 55 | +57% |
| DDR4-3200 | 32 GB (2×16) | ~US$ 60 | ~US$ 95 | +58% |
| DDR5-6000 | 32 GB (2×16) | ~US$ 65 | ~US$ 130 | +100% |
| DDR5-6400 | 64 GB (2×32) | ~US$ 110 | ~US$ 230 | +109% |
| LPDDR5X (notebook) | 16 GB | ~US$ 40 | ~US$ 75 | +88% |
Valores estimados com base em dados históricos de mercado e análise do PC Gamer (agosto de 2026). Preços variam por fabricante e loja.
A LPDDR5X merece atenção especial: é o tipo de memória usada em notebooks ultrafinos, laptops gamer de última geração e, crucialmente, em smartphones premium como os iPhones. Segundo reportagem do Tecnoblog, o custo de fabricação do iPhone 18 Pro pode ser 38% maior em relação ao modelo anterior, com a crise de memória sendo um dos principais fatores. Isso significa que a pressão de preços vai muito além do mercado de PC desktop.
“Nós simplesmente desfizemos cerca de 20 anos de progresso quando se trata de preços de memória.”
— Pesquisador citado pelo PC Gamer, agosto de 2026
O impacto nos notebooks gamer: onde a crise dói mais
Para o mercado de notebook gamer, a crise de RAM tem uma camada extra de complexidade: a maioria dos laptops modernos usa memória soldada na placa (on-board), sem slot de expansão. Isso significa que o consumidor não tem a opção de comprar um modelo com pouca RAM e fazer upgrade depois — você paga o preço do fabricante, que já embutiu o custo da memória cara na configuração de fábrica.
A consequência prática: notebooks gamer que vinham com 16 GB de LPDDR5X como configuração base estão sendo substituídos por modelos com a mesma quantidade, mas a preços significativamente mais altos. Quando o fabricante mantém o preço, frequentemente corta em outro lugar — SSD mais lento, tela com taxa de atualização menor, ou bateria de menor capacidade. É o efeito cascata da crise de memória no hardware móvel.
No mercado americano, o próprio Tom’s Hardware destacou recentemente um notebook Gigabyte Aero X16 com RTX 5060 por US$ 1.099 após desconto de US$ 600 — e mesmo assim a configuração vem com apenas 16 GB de RAM, o mínimo aceitável para gaming em 2026 com jogos como Crimson Desert e futuros lançamentos pesados. Quem quiser 32 GB vai pagar substancialmente mais.

Ângulo brasileiro: quanto isso custa em reais?
No Brasil, a equação é ainda mais cruel. Além da alta de preços nos EUA e na Ásia, o consumidor brasileiro absorve o câmbio (dólar oscilando entre R$ 5,60 e R$ 5,90 em 2026), o Imposto de Importação de 60% sobre produtos eletrônicos trazidos de fora do país, o ICMS estadual e as margens da cadeia de distribuição. Um kit DDR5-6000 de 32 GB que custava cerca de R$ 380 em meados de 2024 pode ser encontrado hoje por R$ 650 a R$ 750 nas principais lojas nacionais — alta de quase 90% em reais.
Para quem está montando um PC do zero, isso representa um impacto de R$ 300 a R$ 400 a mais só na memória em relação ao que pagaria há 18 meses. Em um build que custava R$ 5.000 completo, a memória passou de cerca de 7% do orçamento para quase 14%. Não é trivial. E para quem cogita importar via encomenda internacional, o regime fiscal brasileiro praticamente inviabiliza a vantagem: o imposto de 60% sobre o valor da compra elimina qualquer ganho cambial.
No segmento de notebooks, o impacto é ainda mais opaco — o consumidor não vê o custo da memória separado, mas sente no preço final do aparelho. Modelos que custavam R$ 6.500 em 2024 agora partem de R$ 8.000 com configurações equivalentes, e a memória é parte relevante dessa diferença.
Quanto tempo vai durar? O que dizem os analistas
A perspectiva não é animadora no curto prazo. A Samsung, maior fabricante de memória do mundo, anunciou recentemente o adiamento da adoção de High-NA EUV (a próxima geração de litografia extrema ultravioleta de alta abertura numérica) até 2030 para o nó de 1 nm — o que significa que a expansão de capacidade produtiva com tecnologia de ponta será mais lenta que o esperado, segundo o TechPowerUp. A SK Hynix e a Micron estão priorizando HBM para IA, que é mais lucrativa que DRAM convencional.
A estimativa mais otimista, circulando entre analistas do setor, é que os preços comecem a se estabilizar no segundo semestre de 2027, quando novas capacidades fabris voltadas para DDR5 convencional devem entrar em operação. O cenário pessimista projeta a pressão se estendendo até 2028. Para o consumidor comum, isso significa que esperar uma queda rápida pode ser uma estratégia equivocada — se você precisa do hardware agora, comprar com planejamento é mais inteligente que aguardar uma reversão que pode demorar.
O que isso significa para você
- 🎮 Gamer que está montando PC: Se sua plataforma ainda suporta DDR4 (AMD Ryzen 5000 ou Intel 10ª/11ª geração), considere seriamente maximizar a RAM DDR4 agora — ela subiu menos e ainda é mais barata. Para plataformas DDR5, priorize kits de 32 GB desde o início; fazer upgrade depois vai custar mais. Evite kits de 16 GB se você joga títulos pesados ou usa streaming simultâneo.
- 🎬 Criador de conteúdo: A alta de DDR5 afeta diretamente workloads de edição de vídeo e renderização 3D. Se você usa software como DaVinci Resolve ou Blender, 32 GB é o mínimo razoável e 64 GB é o ideal — só que agora 64 GB DDR5 estão custando o dobro do que custavam há 18 meses. Planeje o orçamento com essa realidade.
- 💼 Trabalho e IA local: Rodar modelos de linguagem localmente (LLMs via Ollama, LM Studio etc.) é extremamente sensível à quantidade de RAM. Com os preços atuais, a estratégia de comprar mais RAM do que o necessário imediato e usar para IA local ficou mais cara — mas ainda pode valer a pena dependendo do uso.
- 💰 Custo-benefício / quem está no limite do orçamento: Se o orçamento é apertado, considere plataformas DDR4 de segunda mão (Ryzen 5000 ainda entrega ótimo gaming) com RAM abundante em vez de plataformas DDR5 novas com RAM escassa. Ou aguarde promoções pontuais — fabricantes como Kingston e Corsair eventualmente queimam estoque. Mas não espere uma queda estrutural antes de 2027.
Veredito editorial: A crise de memória de 2026 é real, significativa e vai durar. Não é alarmismo — os números históricos e a estrutura da indústria confirmam que estamos num ciclo de alta prolongado, agravado pela demanda de IA. Para o consumidor brasileiro, o impacto é amplificado pelo câmbio e pela tributação. A estratégia mais inteligente é comprar com planejamento, priorizando configurações com RAM suficiente desde o início, sem contar com upgrades baratos no futuro próximo. Quem comprou memória em 2024 fez o negócio da vida — quem está comprando agora precisa ser ainda mais criterioso na escolha do hardware.



