O conector de alimentação de 16 pinos — batizado de 12VHPWR pela PCI-SIG e depois atualizado para o padrão 12V-2×6 — voltou a causar estragos. Desta vez, a vítima é uma workstation de aproximadamente US$ 15.000 (algo em torno de R$ 75.000 no câmbio atual, sem contar impostos) equipada com uma NVIDIA RTX PRO 6000 Blackwell Workstation Edition e uma fonte ASRock Taichi TC-1650T. O detalhe que torna o caso ainda mais grave: a ASRock equipou essa fonte com um sensor de temperatura NTC justamente para monitorar o conector e desligar o sistema antes de qualquer dano — e ele simplesmente falhou.
O relato foi documentado por um técnico de reparo e repercutiu no TechPowerUp e no Wccftech. Segundo o profissional, o sensor NTC da ASRock está posicionado no lado errado do conector — monitorando a temperatura da fonte, e não do lado da placa de vídeo, que é exatamente onde o calor se concentra e onde as soldas costumam ceder. O resultado foi um derretimento clássico: plástico fundido, pinos oxidados e uma GPU de cinco dígitos potencialmente comprometida.
O problema do 12VHPWR não é novo — e continua sem solução definitiva
Para entender por que esse incidente importa, é precisa voltar ao início. O conector 12VHPWR surgiu com as GPUs RTX 30 série de alta potência e se tornou padrão obrigatório nas RTX 40 e RTX 50 da NVIDIA, além de aparecer em placas profissionais da linha RTX PRO. Ele substitui múltiplos conectores PCIe de 8 pinos tradicionais por um único cabo compacto, capaz de entregar até 600 W em sua versão mais robusta.
O problema é que o conector exige encaixe perfeito — qualquer folga milimétrica aumenta a resistência elétrica do contato, gera calor localizado e, em casos extremos, derrete o plástico do conector e danifica os pinos. A NVIDIA e a PCI-SIG tentaram corrigir o design com a revisão 12V-2×6, que adicionou travas de retenção mais firmes e pinos de detecção de presença. Mas os relatos de derretimento continuaram, especialmente em setups de alta potência — e agora chegam ao segmento profissional/workstation, onde o hardware custa uma fortuna.

O que é o sensor NTC da ASRock — e por que ele falhou
A ASRock tentou ser proativa. Sua fonte Taichi TC-1650T — uma unidade de 1.650 W voltada para workstations de alto desempenho — incorpora um sensor NTC (Negative Temperature Coefficient), um termistor que mede temperatura e aciona um desligamento de proteção caso os valores ultrapassem o limite seguro. A ideia é boa no papel: detectar o aquecimento anormal no conector antes que o dano seja irreversível.
O problema, segundo o técnico que reportou o caso ao TechPowerUp, é de posicionamento. O sensor NTC foi instalado no lado da fonte do cabo — ou seja, ele mede a temperatura perto da saída da PSU. Mas o calor crítico se concentra no lado oposto: a interface entre o cabo e o conector da GPU. É ali que a resistência de contato aumenta, é ali que o plástico derrete e é ali que o sensor deveria estar. Com o sensor no lugar errado, o sistema simplesmente não detectou o problema a tempo.
“O sensor está no lado errado. Ele monitora a temperatura da fonte, não do conector da GPU — que é exatamente onde o calor se acumula antes do derretimento.”
Técnico de reparo, conforme relatado pelo TechPowerUp
Ficha do setup afetado e escala do prejuízo
| Componente | Modelo | Preço estimado (USD) |
|---|---|---|
| GPU | NVIDIA RTX PRO 6000 Blackwell Workstation Edition | ~US$ 8.000–10.000 |
| Fonte (PSU) | ASRock Taichi TC-1650T | ~US$ 400–500 |
| Setup completo | Workstation de alto desempenho | ~US$ 15.000 |
| Conector afetado | 12VHPWR / 12V-2×6 (16 pinos) | — |
| Recurso de proteção | Sensor NTC (termistor) | Falhou |
A RTX PRO 6000 Blackwell é uma das GPUs profissionais mais poderosas do mercado atual — voltada para renderização 3D, simulações científicas, IA generativa e workloads de machine learning. Não é o tipo de hardware que o usuário médio compra, mas o incidente serve de alerta para qualquer pessoa com uma RTX 4090, RTX 5090 ou outra GPU de alta TDP que dependa do conector 16 pinos. Se o problema acontece em um setup de R$ 75 mil com proteção dedicada, o risco em configurações sem essa camada extra é ainda maior.
Histórico de derretimentos: da RTX 4090 à era Blackwell
A cronologia do problema é longa. Os primeiros relatos massivos surgiram em outubro de 2022, pouco depois do lançamento da RTX 4090, quando dezenas de usuários reportaram conectores derretidos ao redor do mundo. A NVIDIA investigou e concluiu que a maioria dos casos envolvia encaixe incompleto do cabo — o conector não estava totalmente inserido, aumentando a resistência elétrica. A empresa emitiu alertas, criou guias de instalação e a PCI-SIG lançou a revisão 12V-2×6 com melhorias no mecanismo de trava.
Mesmo assim, os relatos não cessaram. Com o lançamento da série RTX 50 em 2025 e das GPUs Blackwell profissionais em 2026, o conector 16 pinos se tornou ainda mais onipresente — e os incidentes continuam. A diferença agora é que o hardware envolvido é cada vez mais caro e os usuários afetados incluem profissionais que dependem dessas máquinas para trabalho crítico, não apenas entusiastas de games.

O que fabricantes e usuários podem fazer
Diante do histórico, algumas práticas se consolidaram como boas medidas de prevenção — mas nenhuma elimina o risco completamente:
- Encaixe firme e completo: O conector deve ser inserido até o clique final, sem folga. Qualquer resistência ao encaixe é sinal de problema.
- Cabos nativos ATX 3.x: Usar o cabo fornecido pela fabricante da fonte, compatível com o padrão ATX 3.0 ou 3.1, reduz o risco em comparação com adaptadores de múltiplos cabos de 8 pinos.
- Inspeção periódica: Em setups de alta potência, verificar o conector visualmente a cada poucos meses é recomendável — qualquer sinal de descoloração ou odor de plástico queimado é alerta vermelho.
- Monitoramento de temperatura: Softwares como HWiNFO podem monitorar os pinos de detecção de presença do 12V-2×6, que reportam temperatura do conector — desde que a GPU e o cabo suportem esse recurso.
- Evitar dobras agressivas: Curvar o cabo em ângulo agudo logo após o conector da GPU é um dos fatores que contribuem para o mau contato.
No caso específico da ASRock, a expectativa é que a empresa responda ao relato e esclareça se há planos para reposicionar o sensor NTC em revisões futuras da Taichi TC-1650T — ou ao menos emitir um comunicado técnico sobre o posicionamento correto do termistor. Até o fechamento desta reportagem, a ASRock não havia se pronunciado publicamente sobre o incidente.
Ângulo brasileiro: impacto para quem monta PC de alto desempenho no Brasil
No Brasil, o cenário é ainda mais delicado. Uma RTX 4090 — GPU de consumo mais próxima da RTX PRO 6000 em termos de TDP e uso do conector 16 pinos — custa entre R$ 12.000 e R$ 18.000 dependendo do modelo e da loja. Uma RTX 5090 ultrapassa R$ 20.000 facilmente. Perder esse hardware por um conector derretido, especialmente fora do período de garantia ou por uso considerado indevido pelo fabricante, representa um prejuízo brutal.
Fontes de alta potência com conectores 16 pinos nativos ainda são relativamente raras no mercado nacional — muitos usuários brasileiros recorrem a adaptadores 3×8 pinos para 16 pinos, que são exatamente o tipo de cabo que a NVIDIA e a PCI-SIG desaconselham por aumentar o risco de superaquecimento. Se você tem uma placa de vídeo de alta potência com conector 16 pinos, vale revisar o cabo agora — e priorizar uma fonte com cabo nativo ATX 3.x na próxima atualização do setup.
O que isso significa para você
Gamer com RTX 40 ou RTX 50: Se você tem uma GPU de alta potência (RTX 4080 ou acima), o risco existe. Verifique se o seu cabo 16 pinos é nativo da fonte ou um adaptador. Inspecione o conector da GPU periodicamente e nunca force dobras no cabo logo após o encaixe. A garantia pode não cobrir danos por conector mal encaixado.
Criador de conteúdo e profissional de IA/3D: Se você usa GPUs profissionais ou workstations de alto valor, o caso da RTX PRO 6000 é um alerta direto. Não confie cegamente nas proteções do fabricante — como demonstrado, elas podem estar mal posicionadas. Monitore ativamente a temperatura do sistema e considere inspeções periódicas por um técnico de confiança.
Quem está montando um PC agora: Na hora de escolher a fonte, priorize modelos com certificação ATX 3.0 ou 3.1 e cabo 16 pinos nativo. Evite adaptadores multi-cabo. O custo extra de uma fonte de qualidade é irrisório diante do risco de perder uma GPU de R$ 10.000 ou mais.
Veredito editorial: O conector 16 pinos resolve um problema real — entregar muita potência em um único cabo compacto — mas sua implementação continua sendo o calcanhar de Aquiles de setups de alta potência. O caso da ASRock Taichi TC-1650T mostra que nem mesmo soluções de proteção dedicadas são infalíveis quando o projeto tem falhas de posicionamento. Enquanto a indústria não apresentar uma solução robusta e à prova de erros de instalação, a responsabilidade recai sobre o usuário: encaixe correto, cabo nativo e inspeção regular são as únicas defesas confiáveis disponíveis hoje.



