Uma câmera de vigilância que deveria proteger dados acabou expondo exatamente o oposto: suas próprias chaves de criptografia armazenadas em texto aberto no hardware. O grupo de pesquisa stegan0gram obteve fisicamente uma câmera da empresa americana Flock Safety, fez engenharia reversa do sistema e extraiu mais de 27.000 clipes de vídeo e 1,6 milhão de imagens capturadas em apenas 21 dias — tudo isso apesar das negativas públicas da empresa de que tal falha existia. O caso, detalhado pelo Tom’s Hardware, é um alerta técnico e filosófico sobre o estado da segurança em câmeras de vigilância pública, e tem implicações diretas para qualquer pessoa que transita por espaços monitorados.
A Flock Safety é uma das maiores fornecedoras de câmeras de leitura de placas veiculares (LPR — License Plate Recognition) dos Estados Unidos, com contratos firmados com centenas de departamentos de polícia. Seus dispositivos são instalados em ruas, condomínios e estacionamentos, capturando automaticamente placas, cores de veículos e até características dos ocupantes. Quando um grupo independente de segurança consegue extrair mais de um milhão de imagens de um único aparelho em menos de um mês, o problema deixa de ser técnico e passa a ser sistêmico.
Como a falha foi descoberta — e por que é grave
O ponto central da vulnerabilidade é deceptivamente simples: a chave de criptografia usada para proteger os dados armazenados no dispositivo estava salva no próprio hardware da câmera, acessível a qualquer pessoa com acesso físico ao aparelho. Em criptografia, isso equivale a esconder a chave do cofre embaixo do tapete na frente do cofre. Não importa quão robusto seja o algoritmo de criptografia — AES-256, ChaCha20, o que for — se a chave está no mesmo lugar que os dados protegidos, a proteção é ilusória.
O grupo stegan0gram documentou o processo de extração e publicou suas descobertas, revelando que os dispositivos da Flock armazenam localmente um volume muito maior de dados do que a empresa havia divulgado publicamente. A Flock havia negado que as câmeras armazenavam dados localmente de forma significativa — a realidade encontrada pelos pesquisadores contradiz essa afirmação de maneira inequívoca.
O problema estrutural: segurança por obscuridade
A abordagem da Flock Safety é um exemplo clássico de security through obscurity — segurança por obscuridade —, uma prática amplamente condenada pela comunidade de cibersegurança. A ideia é que, se ninguém sabe como o sistema funciona, ninguém vai conseguir atacá-lo. O problema é que essa premissa falha no momento em que alguém com conhecimento técnico e acesso físico ao dispositivo decide investigar. E câmeras instaladas em postes públicos, calçadas e estacionamentos são, por definição, fisicamente acessíveis.
A alternativa correta — e bem estabelecida na indústria — é o modelo de confiança zero com criptografia assimétrica: as chaves privadas nunca saem de um módulo de segurança dedicado (HSM — Hardware Security Module), e os dados só podem ser decifrados por servidores autorizados que possuem a chave correspondente. Se o dispositivo físico for comprometido, os dados capturados permanecem ilegíveis. Aparentemente, a Flock não implementou esse modelo.
Em 21 dias, uma única câmera da Flock Safety capturou 1,6 milhão de imagens e mais de 27.000 clipes de vídeo — todos acessíveis após a extração da chave de criptografia armazenada no próprio hardware do dispositivo.
Tom’s Hardware, setembro de 2026
Comparativo: como outros fabricantes lidam com isso
Para entender a gravidade, vale comparar a abordagem da Flock com padrões da indústria em câmeras de segurança corporativa e pública:
| Fabricante / Padrão | Armazenamento de chave | Acesso físico compromete dados? | Certificação |
|---|---|---|---|
| Flock Safety (caso investigado) | No próprio hardware da câmera | Sim — chave extraída com acesso físico | Não divulgada |
| Câmeras corporativas com HSM | Módulo de segurança dedicado (HSM) | Não — chave não é exportável | FIPS 140-2 / 140-3 |
| Padrão ONVIF Profile S (câmeras IP) | Certificado TLS no dispositivo | Parcialmente — depende da implementação | ONVIF |
| Câmeras governamentais (padrão NIST) | TPM + criptografia de disco | Muito difícil — requer ataque ao TPM | FIPS 140-3 |
A diferença é substancial. Câmeras que seguem padrões como o FIPS 140-3 — exigido para equipamentos governamentais nos EUA — utilizam chips de segurança dedicados onde as chaves criptográficas são geradas e jamais exportadas em texto claro. Mesmo que um atacante desmonte o dispositivo e acesse diretamente os chips de memória, os dados permanecem cifrados sem a chave, que está presa no HSM. A Flock, ao que tudo indica, pulou essa etapa fundamental.
Volume de dados: o que 1,6 milhão de imagens em 21 dias significa
Outro ponto que merece atenção é a escala do que foi extraído. Estamos falando de aproximadamente 76.000 imagens por dia capturadas por um único dispositivo — o que dá uma imagem a cada 1,1 segundo em operação contínua. Mesmo considerando que câmeras LPR operam em modo de disparo por detecção (só capturam quando há movimento ou veículo), esse volume revela que esses aparelhos funcionam como verdadeiras aspiradoras de dados em vias públicas.
Cada imagem pode conter não apenas a placa do veículo, mas também a cor, o modelo, o horário, a geolocalização e, dependendo do ângulo, o rosto dos ocupantes. Multiplicado por centenas de câmeras instaladas em uma única cidade, o banco de dados gerado é de uma granularidade que poucos cidadãos imaginam existir — e que, agora, sabemos pode ser acessado por qualquer pessoa com acesso físico ao hardware e conhecimento técnico básico.
A postura da Flock Safety — e o que ela revela
O detalhe mais preocupante do caso não é a falha técnica em si — vulnerabilidades existem em qualquer sistema complexo. O problema é a negação pública da empresa antes que as evidências fossem apresentadas. A Flock Safety havia afirmado que as câmeras não armazenavam dados localmente de forma significativa, e que os dados eram protegidos adequadamente. Ambas as afirmações foram refutadas pela pesquisa do stegan0gram.
Essa postura de negação antes da investigação independente é um padrão preocupante na indústria de segurança física. Empresas que vendem sistemas de vigilância têm incentivo financeiro para minimizar vulnerabilidades — afinal, seus clientes são departamentos de polícia e prefeituras que precisam justificar contratos milionários. A transparência proativa, como a que empresas de software praticam através de programas de bug bounty e divulgação responsável, é praticamente inexistente nesse segmento.
Ângulo brasileiro: câmeras de vigilância e privacidade no Brasil
O Brasil não usa câmeras Flock Safety em escala, mas o caso é um espelho direto para o ecossistema de vigilância nacional. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba operam redes extensas de câmeras LPR e de reconhecimento facial, frequentemente com equipamentos de fabricantes asiáticos — Hikvision e Dahua lideram o mercado — que também já foram alvo de investigações de segurança sérias. Em 2019, o Departamento de Segurança Interna dos EUA alertou sobre backdoors potenciais em câmeras Hikvision. O Brasil continuou comprando.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece que dados pessoais — e imagens de pessoas em vias públicas se enquadram nessa categoria — devem ser protegidos com medidas técnicas adequadas. O caso Flock levanta uma questão legítima: os contratos de vigilância pública no Brasil exigem auditorias de segurança dos dispositivos instalados? A resposta, na grande maioria dos casos, é não. Não há exigência legal de certificação de segurança para câmeras de vigilância pública no país, e os processos licitatórios raramente incluem critérios técnicos de cibersegurança além do básico.
Para o cidadão brasileiro, isso significa que os dados capturados por câmeras municipais — sua placa, seu rosto, seus horários de deslocamento — podem estar protegidos de forma igualmente precária. Não há como saber sem uma auditoria independente, e essas auditorias não são obrigatórias.
O que isso significa para você
Este caso vai além do hardware — é sobre quem tem acesso aos seus dados e com que nível de proteção eles são guardados. Veja o impacto por perfil:
- Cidadão comum: Você é monitorado por câmeras LPR toda vez que dirige em vias públicas de grandes cidades. Se os dispositivos usados pelas prefeituras têm falhas similares às da Flock, seus dados de localização e deslocamento podem estar vulneráveis a qualquer pessoa com acesso físico ao hardware. Exija transparência das gestões municipais sobre os fornecedores e certificações dos sistemas de vigilância.
- Profissional de TI e segurança: O caso é um estudo de caso clássico sobre falha de threat modeling — a Flock claramente não modelou o cenário de acesso físico ao dispositivo como uma ameaça relevante. Se você trabalha com IoT ou sistemas embarcados, a lição é clara: chaves criptográficas nunca devem residir no mesmo meio que os dados que protegem. Use TPM ou HSM dedicado.
- Gestor público ou comprador corporativo: Antes de fechar contrato com qualquer fornecedor de câmeras de segurança, exija documentação de certificação (FIPS 140-2/3 no mínimo), política de divulgação de vulnerabilidades e histórico de resposta a incidentes. A economia na licitação pode custar caro em responsabilidade legal sob a LGPD.
- Usuário de câmeras domésticas (IP/Wi-Fi): O princípio se aplica ao seu ambiente também. Câmeras IP baratas — especialmente as sem marca ou de marcas desconhecidas — frequentemente têm credenciais padrão e firmware sem atualizações. Mantenha o firmware atualizado, mude as senhas padrão e isole câmeras em uma VLAN separada da sua rede principal.
Veredito editorial
O caso Flock Safety é mais do que uma história de hacker versus câmera. É a demonstração de que a indústria de vigilância física opera com décadas de atraso em relação às melhores práticas de segurança da informação — e que as consequências dessa defasagem recaem sobre cidadãos que nunca consentiram em ter seus dados coletados, muito menos armazenados de forma insegura. A negação inicial da empresa, seguida pela evidência irrefutável dos pesquisadores, é o roteiro padrão de um setor que prefere o silêncio à responsabilidade.
No Brasil, onde a LGPD existe no papel mas a fiscalização de sistemas de vigilância pública é praticamente nula, o risco é real e subestimado. A pergunta que deveria ser feita a cada prefeitura que instala câmeras LPR nas ruas não é “quantas câmeras temos?” — é “quem pode acessar os dados que elas coletam, e como esses dados estão protegidos?” Por enquanto, a maioria das gestões municipais não tem resposta para isso.


