O mercado de placas de vídeo da AMD pode estar prestes a ficar mais caro — e desta vez a culpa não é dos mineradores de criptomoeda nem de escassez de silício. Segundo informações publicadas pelo fórum chinês Board Channel e repercutidas pelo TechPowerUp, a AMD teria repassado um aumento no preço da memória GDDR6 que fornece a seus parceiros fabricantes (os chamados AIBs — Add-in Board partners), com vigência a partir de 1º de outubro de 2026. A notícia é relevante porque a AMD, diferentemente da NVIDIA, fornece o pacote de memória junto com o chip GPU para boa parte de seus parceiros, o que significa que esse custo extra vai direto para a cadeia de produção das Radeon RX 7000 e RX 9000.
Para o consumidor brasileiro, qualquer movimentação de preço na base da cadeia de suprimento de GPUs tem impacto amplificado: além do câmbio dólar-real historicamente desfavorável, ainda há o peso dos impostos de importação e do ICMS. Uma alta de custo que nos EUA se traduz em US$ 20 a mais no varejo pode facilmente virar R$ 200 a R$ 300 a mais na prateleira nacional. Entender o que está acontecendo — e por quê — é essencial antes de decidir se você compra agora ou espera.
O que é a GDDR6 e por que a AMD a fornece junto com o chip?
A GDDR6 (Graphics Double Data Rate 6) é o tipo de memória de vídeo predominante nas GPUs de médio e alto desempenho da geração atual. Ao contrário da NVIDIA, que deixa seus parceiros AIB (Asus, Gigabyte, MSA, Sapphire, PowerColor, etc.) comprarem memória diretamente dos fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron, a AMD historicamente fornece o pacote completo — chip GPU + memória — para boa parte de seus parceiros. Esse modelo dá à AMD maior controle sobre a qualidade e a rastreabilidade do produto final, mas também significa que qualquer ajuste de preço interno repercute imediatamente no custo de fabricação das placas.
A GDDR6 opera com largura de banda de até 16 Gbps por pino, enquanto a GDDR6X — usada em cards de topo da NVIDIA como a RTX 4080 — chega a 21 Gbps usando modulação PAM4. A AMD usa GDDR6 convencional em toda a linha Radeon RX 7000 (RDNA 3) e nas novas RX 9000 (RDNA 4), exceto nos modelos de topo que adotam memória HBM (High Bandwidth Memory) para workstations. Portanto, o aumento afeta diretamente o grosso do portfólio de consumo da empresa.

Por que a AMD estaria aumentando o preço agora?
A fonte original é o fórum Board Channel, que reúne informações de parceiros e distribuidores asiáticos, e a notícia não foi confirmada oficialmente pela AMD. Dito isso, há contexto de mercado que torna o movimento plausível. O preço global de chips DRAM — incluindo GDDR — vem subindo ao longo de 2026 após um período de superprodução e queda de preços em 2023-2024. A retomada da demanda por IA, servidores e dispositivos de consumo pressionou os fabricantes de memória a reduzirem estoques e reajustarem tabelas.
Paralelamente, a AMD enfrenta pressão de margem: a linha Radeon RX 9000 (RDNA 4) foi lançada com preços agressivos para competir com a NVIDIA GeForce RTX 50, e manter essa agressividade de preço enquanto o custo dos insumos sobe é matematicamente difícil. Repassar o aumento aos AIBs é uma forma de preservar a margem da empresa sem aumentar o preço sugerido de varejo (MSRP) diretamente — embora o efeito final para o consumidor seja o mesmo.
“AMD teria repassado o aumento de custo da GDDR6 aos parceiros fabricantes com vigência a partir de 1º de outubro de 2026 — e o impacto no preço de varejo pode ser questão de semanas.”
TechPowerUp, com base em relatos do fórum Board Channel
Quais placas AMD podem ser afetadas?
O aumento atinge toda a cadeia de produção das Radeon que usam GDDR6 fornecida pela AMD. Na prática, isso cobre a maioria dos modelos de consumo das famílias RDNA 3 e RDNA 4. Veja o panorama:
| Série | Arquitetura | Tipo de Memória | Impacto Estimado |
|---|---|---|---|
| RX 7600 / 7700 | RDNA 3 | GDDR6 | Alto (estoque ainda em circulação) |
| RX 7800 XT / 7900 GRE | RDNA 3 | GDDR6 | Alto |
| RX 7900 XT / 7900 XTX | RDNA 3 | GDDR6 | Moderado (estoques menores) |
| RX 9070 / 9070 XT | RDNA 4 | GDDR6 | Alto (linha nova em produção ativa) |
| RX 9060 XT (prevista) | RDNA 4 | GDDR6 | Pode nascer já com custo mais alto |
| Radeon PRO W7900 | RDNA 3 | HBM3 | Não afetada |
O ponto mais crítico é a RX 9070 XT, que se tornou a grande aposta da AMD no segmento de R$ 3.500 a R$ 4.500 no Brasil. Ela compete diretamente com a RTX 4070 Super e a RTX 5070 da NVIDIA, e qualquer encarecimento pode corroer a vantagem de custo-benefício que a tornou popular desde o lançamento.
Como isso se compara com a situação da NVIDIA?
A NVIDIA usa uma estrutura diferente: seus parceiros compram memória GDDR7 (nas RTX 50) e GDDR6X (nas RTX 40) diretamente dos fabricantes de DRAM. Isso significa que a NVIDIA não tem o mesmo alavancador de preço direto sobre a memória dos cards de seus parceiros — mas também significa que os AIBs da NVIDIA estão igualmente expostos à alta de preços de DRAM no mercado aberto. A diferença é que o aumento chega de forma mais difusa e pode ser absorvido ou repassado de forma diferente por cada fabricante.
Em termos práticos, a GeForce RTX 5070 e a RTX 5070 Ti, que já sofrem com disponibilidade limitada, podem ter seus preços sustentados artificialmente altos por demanda reprimida — enquanto as Radeon RX 9070 e 9070 XT, até agora com melhor disponibilidade, podem perder parte da vantagem de preço se o aumento da GDDR6 for repassado ao varejo. É um equilíbrio delicado que beneficia ou prejudica o consumidor dependendo de quanto cada elo da cadeia consegue absorver.

O ângulo brasileiro: o que muda para quem compra aqui?
O Brasil é um dos mercados onde o impacto de aumentos de custo na base da cadeia é mais severo. A placa de vídeo já chega ao consumidor nacional com uma carga tributária pesada — IPI, ICMS, PIS/COFINS e, no caso de importados, ainda o imposto de importação. Uma GPU que custa US$ 500 nos EUA frequentemente ultrapassa R$ 4.000 a R$ 4.500 no Brasil, dependendo do câmbio e do canal de venda.
Se o aumento de custo da GDDR6 for de, digamos, 5% a 10% no custo de fabricação, e esse percentual for repassado integralmente ao MSRP americano, a amplificação no preço brasileiro pode ser de R$ 200 a R$ 500 dependendo da faixa do produto. Para cards de entrada como a RX 7600, o impacto absoluto é menor, mas percentualmente pode ser significativo. Para a RX 9070 XT, que já beira R$ 4.000 em alguns revendedores, qualquer reajuste coloca a placa em território de concorrência direta com a RTX 5070 — que hoje custa mais, mas entrega desempenho superior em ray tracing e tem o ecossistema DLSS 4 como diferencial.
Outro fator relevante: o Wccftech publicou recentemente análise mostrando que CPU, DRAM e SSD já consomem 68% do custo de fabricação de um notebook de US$ 900, forçando fabricantes a escolhas difíceis entre margem, qualidade e preço final. O mesmo raciocínio se aplica às GPUs discretas: quando o custo de memória sobe, algo tem que ceder — e historicamente é o bolso do consumidor que cede primeiro.
Devo comprar agora ou esperar?
A pergunta que todo mundo faz nesses momentos não tem resposta única, mas o contexto ajuda a decidir. Se você está de olho em uma Radeon RX 9070 ou RX 9070 XT, comprar agora — antes que os revendedores recebam lotes com custo mais alto — faz sentido estratégico. Os estoques atuais foram produzidos com o custo anterior de memória, e os preços de varejo tendem a demorar algumas semanas para refletir mudanças na cadeia de suprimento.
Por outro lado, se você estava esperando pela RX 9060 XT — ainda não lançada — saiba que ela pode chegar ao mercado já com o custo de memória mais alto embutido, o que pode frustrar expectativas de preço agressivo no segmento de entrada. Vale monitorar os anúncios oficiais da AMD nas próximas semanas.
O que isso significa para você
- Gamer que quer trocar de GPU agora: Se a Radeon RX 9070 XT está no seu radar e você encontrou um preço justo, considere antecipar a compra. O aumento de custo ainda não chegou ao varejo brasileiro, mas é questão de tempo. Cards da geração RDNA 3 (RX 7800 XT, RX 7900 GRE) podem ter promoções de saída de estoque — boa janela para quem aceita a geração anterior.
- Criador de conteúdo: A GDDR6 em quantidade (16 GB ou mais) é importante para workloads de edição de vídeo e renderização. Se você usa software otimizado para AMD (como DaVinci Resolve, que tem ótimo suporte a ROCm), a RX 9070 XT ainda é uma opção competitiva — mas fique atento ao preço nos próximos 30 a 60 dias.
- Usuário de IA local e trabalho pesado: Para inferência de modelos de linguagem e IA local, VRAM é rei. A RX 9070 XT com 16 GB de GDDR6 ainda compete bem nesse quesito, mas o ecossistema CUDA da NVIDIA (apontado pelo Wccftech como fator que está acelerando vendas de notebooks RTX Spark) é um diferencial real para quem usa frameworks como PyTorch. Se o preço da Radeon subir, a equação pode pender mais para a GeForce.
- Custo-benefício / orçamento apertado: Fique de olho em placas de vídeo da geração anterior em promoção. Com o possível reajuste vindo por aí, modelos como RX 7700 e RX 7800 XT podem representar a melhor relação desempenho/real dos próximos meses antes que os preços se estabilizem em patamar mais alto.
Veredito editorial: O aumento de preço da GDDR6 pela AMD ainda é rumor — não confirmado oficialmente —, mas é tecnicamente coerente com o cenário de mercado de memória em 2026. O consumidor brasileiro, que já paga caro por GPUs, deve usar as próximas semanas como janela de oportunidade para fechar negócio nos preços atuais, especialmente na linha RX 9000. Se a AMD confirmar o reajuste e os AIBs repassarem o custo, veremos as Radeons perderem parte do apelo de custo-benefício que as tornou competitivas neste ciclo — e a NVIDIA, mesmo com seus próprios problemas de disponibilidade, pode se beneficiar indiretamente.



