Por quase duas décadas, a trilogia original de Uncharted permaneceu como exclusividade absoluta do PlayStation — um dos maiores argumentos da Sony para quem considerava migrar do PC para o console. Isso mudou. Um ambicioso projeto comunitário acaba de tornar Uncharted 1, 2 e 3 jogáveis no PC, com suporte a 120 FPS, DLSS, FSR e até frame generation. Não é emulação tradicional: é algo tecnicamente mais sofisticado, e o resultado é impressionante o suficiente para levantar questões sérias sobre o futuro das exclusividades de console.
Segundo o Wccftech, o projeto combina execução nativa de CPU com emulação de GPU, uma abordagem híbrida que permite rodar o código original dos jogos enquanto traduz as chamadas gráficas para APIs modernas como DirectX 12 e Vulkan. O resultado prático: os três primeiros capítulos das aventuras de Nathan Drake, lançados originalmente entre 2007 e 2011 e remasterizados no PS4, agora funcionam em hardware PC com todas as tecnologias de upscaling e geração de frames que o ecossistema tem a oferecer.
Como o Port Não-Oficial Funciona: CPU Nativa + Emulação de GPU
Entender a diferença técnica aqui é fundamental. A emulação convencional — como a que o RPCS3 faz com jogos de PS3 — traduz tudo: CPU e GPU. Isso gera overhead enorme, exige hardware potente e frequentemente resulta em incompatibilidades. A abordagem desse projeto é diferente: o código de CPU roda de forma nativa no processador x86 do PC, sem camada de tradução. Apenas as instruções gráficas, originalmente escritas para a arquitetura RSX (PS3) ou GCN (PS4), passam por uma camada de tradução para APIs modernas.
Isso explica por que o desempenho é bom o suficiente para alcançar 120 FPS — um teto que os consoles originais jamais atingiram. O gargalo histórico da emulação sempre foi a CPU; ao eliminá-lo, o projeto libera a GPU para trabalhar sem as limitações artificiais de uma camada de abstração pesada. Com DLSS (da NVIDIA) e FSR (da AMD) integrados, ainda é possível escalar resolução com custo computacional reduzido, tornando a experiência viável mesmo em hardware de médio porte.

Contexto: Por Que Isso Importa Tanto
A Sony tem uma política clara de exclusividades temporárias: jogos como God of War, Spider-Man, Horizon Zero Dawn e The Last of Us chegaram ao PC anos depois do lançamento original no PS4/PS5. Mas a trilogia clássica de Uncharted — especificamente Drake’s Fortune (2007), Among Thieves (2009) e Drake’s Deception (2011), remasterizados na Nathan Drake Collection de 2015 — nunca recebeu port oficial para PC. A Sony portou Uncharted 4 e The Lost Legacy para PC em 2022, mas os três primeiros ficaram esquecidos.
Para o jogador de PC, isso significou anos de espera por títulos que definiram uma geração inteira de jogos de ação e aventura. A trilogia original estabeleceu a linguagem visual e narrativa que influenciou praticamente todo o gênero — de Tomb Raider a The Last of Us. Ter acesso a esses jogos com tecnologias modernas não é só curiosidade técnica: é preencher uma lacuna histórica significativa no catálogo PC.
“Após quase duas décadas de exclusividade PlayStation, a trilogia original de Uncharted finalmente roda no PC — com 120 FPS, DLSS, FSR e frame generation, graças a um projeto comunitário que combina execução nativa de CPU com emulação de GPU.”
O Que o Port Entrega na Prática
De acordo com o Wccftech, os três jogos já são jogáveis do início ao fim, com os seguintes recursos disponíveis:
- Framerate desbloqueado com suporte a até 120 FPS (e potencialmente mais, dependendo do hardware)
- DLSS (NVIDIA Deep Learning Super Sampling) para upscaling inteligente via IA
- FSR (AMD FidelityFX Super Resolution) como alternativa agnóstica de hardware
- Frame Generation para multiplicar artificialmente os quadros por segundo
- Suporte a resoluções acima de 1080p, incluindo 1440p e 4K
- Compatibilidade com controles modernos (incluindo DualSense e Xbox)
A ressalva honesta: projetos dessa natureza raramente chegam 100% polidos. Bugs, problemas de sincronização em cutscenes, falhas em efeitos de partículas e inconsistências em determinadas fases são esperados — especialmente nos primeiros estágios. O projeto ainda está em desenvolvimento ativo, e a comunidade responsável continua iterando sobre o código.
| Jogo | Lançamento Original | Plataforma Original | FPS Original (PS4) | FPS no Port PC |
|---|---|---|---|---|
| Uncharted: Drake’s Fortune | 2007 | PS3 / PS4 (remaster) | 60 FPS | Até 120 FPS+ |
| Uncharted 2: Among Thieves | 2009 | PS3 / PS4 (remaster) | 60 FPS | Até 120 FPS+ |
| Uncharted 3: Drake’s Deception | 2011 | PS3 / PS4 (remaster) | 60 FPS | Até 120 FPS+ |
Comparação com o RPCS3 e Outros Projetos de Preservação
O RPCS3, emulador de PS3 de código aberto, já permitia rodar os jogos originais de Uncharted há alguns anos — mas com desempenho irregular, exigindo CPUs de alto desempenho para manter 30 FPS estáveis, e sem suporte a tecnologias modernas de upscaling. Este novo projeto parte de uma base diferente: usa as versões remasterizadas para PS4 (da Nathan Drake Collection), que têm código mais otimizado e gráficos mais refinados, e aplica a abordagem híbrida de execução nativa.
É uma evolução significativa no campo de preservação de jogos — área que ganhou relevância crescente à medida que títulos históricos desaparecem de lojas digitais ou ficam presos em hardware descontinuado. Do ponto de vista técnico, este projeto representa o estado da arte em compatibilidade não-oficial para jogos PlayStation.

Ângulo Brasileiro: Acesso, Custo e Legalidade
Aqui o assunto fica delicado — e é importante ser transparente. Projetos de port não-oficial operam em zona cinzenta legal. Tecnicamente, para usar esses ports de forma legítima, o jogador precisaria possuir uma cópia original dos jogos. A Sony nunca disponibilizou a Nathan Drake Collection oficialmente no PC, o que complica ainda mais a situação.
Para o público brasileiro, o contexto financeiro é relevante: Uncharted 4: A Thief’s End e The Lost Legacy, os únicos títulos da franquia com port oficial para PC, custam atualmente cerca de R$ 99 a R$ 149 na Steam (variando conforme promoções). Não existe opção de compra legal para os três primeiros jogos no PC — o consumidor brasileiro simplesmente não tem como adquirir legalmente a trilogia clássica para jogar no computador.
Do ponto de vista técnico de hardware, a boa notícia é que o port não exige uma placa de vídeo de última geração para rodar bem. Jogos que originalmente rodavam em PS3/PS4 têm demandas gráficas modestas para os padrões atuais — uma GPU de médio porte já deve ser suficiente para 1080p/60 FPS sem upscaling. Para 4K com frame generation, aí sim você vai querer algo mais robusto.
O Que Isso Significa para a Sony e as Exclusividades
Este port não-oficial coloca pressão implícita sobre a Sony para finalmente lançar a Nathan Drake Collection oficialmente no PC. A empresa tem demonstrado disposição crescente em portar seu catálogo — mas de forma seletiva e com anos de atraso. Se a comunidade consegue entregar uma experiência jogável com recursos modernos, o argumento para manter a trilogia presa no console fica cada vez mais fraco.
Historicamente, projetos de emulação e port comunitário já serviram como catalisadores para lançamentos oficiais. O interesse demonstrado pela comunidade PC em títulos como Bloodborne (que até hoje não tem port oficial) e agora Uncharted é um sinal claro de demanda reprimida que as publishers estão deixando dinheiro na mesa ao ignorar.
O que isso significa para você
Para o gamer PC que nunca teve console: Esta é a primeira chance real de jogar a trilogia que definiu o gênero de ação e aventura moderno. Se você cresceu no PC e sempre ouviu falar de Uncharted sem poder experimentar, o projeto existe e funciona — com a ressalva de que ainda está em desenvolvimento e pode apresentar instabilidades.
Para quem tem hardware modesto: A boa notícia é que jogos de PS3/PS4 remasterizados não são pesados pelos padrões de 2026. Um processador moderno de médio porte combinado com uma GPU razoável já deve entregar 60 FPS estáveis em 1080p. O suporte a FSR significa que até quem tem hardware AMD ou mais antigo pode se beneficiar de upscaling.
Para entusiastas de hardware e alta performance: O desbloqueio de framerate é o grande atrativo. Jogar Uncharted 2 — um dos jogos mais bonitos de sua época — a 120 FPS em 1440p ou 4K com DLSS é uma experiência que simplesmente não existia antes. Frame generation pode empurrar esse número ainda mais alto, embora com as ressalvas de latência que a tecnologia carrega.
Veredito editorial: Do ponto de vista técnico, este projeto é uma conquista genuína da comunidade PC — e um argumento poderoso pela preservação de jogos. A abordagem híbrida de execução nativa de CPU com emulação de GPU representa uma evolução real no campo. A Sony deveria prestar atenção: há um mercado enorme e disposto a pagar por uma Nathan Drake Collection oficial no PC. Enquanto isso não acontece, a comunidade está preenchendo o vazio — e fazendo um trabalho impressionante.



