O que acontece quando você pega o APU do PlayStation 5, destrava seus recursos escondidos e coloca tudo num PC montado à mão? A resposta está no AMD BC-250, um chip que saiu das entranhas do console da Sony e ganhou uma segunda vida nas mãos de entusiastas ao redor do mundo — e agora, com avanços significativos nos últimos meses, virou assunto sério no Tom’s Hardware. O benchmark completo publicado pelo site mostra um desempenho que o próprio veículo compara ao das antigas Steam Machines — as tentativas da Valve de levar o Linux ao salão —, mas pela metade do preço. Para o público brasileiro que busca uma plataforma de entrada barata ou simplesmente quer entender o que esse chip é capaz, a história do BC-250 é fascinante.
O BC-250 não é um produto convencional. Ele é um APU (Accelerated Processing Unit — processador que integra CPU e GPU no mesmo die) produzido pela AMD especificamente para o PS5, depois reaproveitado em kits de desenvolvimento e, eventualmente, vazado para o mercado gris. Quem compra um BC-250 hoje está adquirindo, essencialmente, o coração do PS5 num formato de placa PCI-Express, com todas as implicações — e limitações — que isso carrega.
O que é o BC-250 e de onde ele veio
O chip do PS5 usa a arquitetura Zen 2 para a parte de CPU, com oito núcleos e dezesseis threads, e a arquitetura RDNA 2 para a GPU, com até 36 Compute Units (CUs) na configuração padrão do console. O BC-250, porém, é uma versão ligeiramente diferente: ele foi fabricado com 40 CUs no die — quatro a mais do que o PS5 de produção —, sendo que algumas ficavam desabilitadas por padrão para garantir yield (aproveitamento de chips bons na fábrica). Recentemente, a comunidade conseguiu desbloquear essas unidades extras, e agora é possível rodar o BC-250 com todos os 40 CUs e todos os oito núcleos Zen 2 ativos. Segundo o Tom’s Hardware, esse foi um dos avanços mais importantes dos últimos meses para a plataforma.
A memória também merece atenção: o chip usa GDDR6 compartilhada entre CPU e GPU, no mesmo estilo de arquitetura unificada do PS5. Isso é diferente do que estamos acostumados em PCs tradicionais, onde RAM do sistema e VRAM da GPU são pools separados. A largura de banda alta da GDDR6 é um dos pontos fortes do chip — e um dos motivos pelos quais ele consegue entregar desempenho gráfico razoável mesmo sem uma GPU discreta.

Benchmarks: o que o BC-250 consegue entregar
Com o desbloqueio dos 40 CUs e dos oito núcleos Zen 2, o Tom’s Hardware montou uma máquina completa com o BC-250 e rodou uma bateria de testes. Os resultados, segundo o veículo, colocam o chip numa faixa de desempenho comparável às antigas Steam Machines — sistemas com GPUs dedicadas de entrada, como a GTX 750 Ti e similares —, mas a um custo significativamente menor. Para jogos em 1080p com configurações médias ou baixas, o chip se vira: títulos menos exigentes rodam de forma aceitável, enquanto jogos modernos mais pesados exigem concessões sérias nas configurações.
O ponto mais interessante da análise é a comparação de custo-benefício. O Tom’s Hardware aponta que é possível montar um sistema funcional com o BC-250 pela metade do preço de uma Steam Machine equivalente em desempenho — e com a vantagem de rodar Windows ou Linux nativamente, ao contrário do PS5, que é um ecossistema fechado.
| Chip | Arquitetura CPU | Núcleos/Threads | GPU (CUs) | Memória | Faixa de desempenho estimada |
|---|---|---|---|---|---|
| AMD BC-250 (desbloqueado) | Zen 2 | 8C / 16T | RDNA 2, 40 CUs | GDDR6 compartilhada | ~GTX 1650 / RX 6500 XT |
| AMD BC-250 (padrão) | Zen 2 | 8C / 16T | RDNA 2, 36 CUs | GDDR6 compartilhada | ~GTX 1060 6GB |
| PS5 (produção) | Zen 2 | 8C / 16T | RDNA 2, 36 CUs | GDDR6, 16 GB | Console otimizado |
| Steam Deck APU (Van Gogh) | Zen 2 | 4C / 8T | RDNA 2, 8 CUs | LPDDR5, 16 GB | Portátil de entrada |
Nota: as estimativas de desempenho são aproximadas, baseadas nos benchmarks do Tom’s Hardware e na comparação com GPUs dedicadas equivalentes. Resultados reais variam conforme o jogo, drivers e configuração do sistema.
O desbloqueio dos 40 CUs: como a comunidade chegou lá
O processo de desbloqueio dos CUs extras não é trivial e envolve modificações em firmware e drivers — algo que a comunidade de entusiastas foi desenvolvendo ao longo de meses. O BC-250 chega ao mercado gris geralmente em placas de desenvolvimento ou kits de avaliação descontinuados, e parte do trabalho da comunidade foi entender como o chip se comunica com o sistema operacional e como forçar a ativação das unidades de computação que a AMD deixou inativas por padrão.
O resultado prático é um ganho mensurável de desempenho gráfico — os 40 CUs entregam mais do que os 36 padrão, especialmente em cargas de trabalho GPU-bound (quando o gargalo é a placa de vídeo, não o processador). Segundo o Tom’s Hardware, o desbloqueio também habilitou todos os oito núcleos Zen 2, que em algumas configurações anteriores ficavam parcialmente desativados, melhorando o desempenho em jogos e aplicações que se beneficiam de mais threads.
“O BC-250 com 40 CUs desbloqueados entrega desempenho comparável às Steam Machines, mas pela metade do preço — tornando-o uma das opções mais curiosas para quem quer um PC de entrada barato em 2026.” — Tom’s Hardware
Limitações reais: o que o BC-250 não consegue fazer
Antes de se empolgar, é preciso ser honesto sobre as limitações. O Zen 2 é uma arquitetura de 2019 — boa para a época, mas que hoje mostra idade em jogos que demandam IPC (instruções por ciclo) alto, como títulos AAA modernos. Comparado a um Ryzen 5 5600 ou qualquer chip Zen 4/Zen 5 atual, o BC-250 perde feio em cargas de trabalho CPU-intensivas.
A GPU integrada RDNA 2 com 40 CUs é respeitável para um APU, mas está longe de competir com GPUs dedicadas modernas. Uma placa de vídeo discreta de entrada atual, como uma RX 7600 ou RTX 4060, entrega facilmente o dobro ou o triplo do desempenho gráfico. O BC-250 é uma opção para quem não pode ou não quer gastar com GPU separada — não uma alternativa competitiva ao hardware atual.
Há também a questão dos drivers: como o chip foi projetado para o PS5, o suporte a drivers no Windows não é oficial. A comunidade mantém patches e soluções alternativas, mas isso significa que nem todo jogo vai funcionar perfeitamente, e atualizações do sistema operacional podem quebrar a compatibilidade. É um produto para entusiastas dispostos a lidar com instabilidades ocasionais — não para usuários que querem plug-and-play.

Ângulo brasileiro: faz sentido aqui?
No Brasil, o BC-250 é ainda mais de nicho do que nos EUA. O chip não é vendido oficialmente por nenhum varejista nacional — quem quer um precisa importar, geralmente via AliExpress ou revendedores internacionais, enfrentando o câmbio atual (dólar acima de R$ 5,70 no momento da publicação), o Imposto de Importação e o ICMS estadual, que juntos podem facilmente dobrar o custo do produto. Uma placa de desenvolvimento com o BC-250 que custa cerca de US$ 100 a US$ 150 nos EUA pode chegar a R$ 1.200 a R$ 1.800 no Brasil após todos os tributos — valor que, no mercado nacional, compra uma GPU discreta usada bastante mais capaz.
Isso não significa que o projeto seja irrelevante para o brasileiro. Do ponto de vista técnico e educacional, o BC-250 é uma janela fascinante para entender como funciona a arquitetura do PS5, como APUs de alto desempenho se comportam em cargas reais, e até para quem quer experimentar com desenvolvimento de software ou emulação. Mas como plataforma de jogo primária? Não faz sentido econômico no Brasil em 2026.
Para quem está no Brasil e quer montar um PC gamer de entrada com orçamento apertado, as opções nacionais ainda são mais vantajosas: um Ryzen 5 5600 com uma RX 6600 usada, por exemplo, entrega desempenho muito superior ao BC-250 por um preço que, no mercado interno, é competitivo.
Comparação com o Steam Deck e outros APUs
A comparação com o Steam Deck é inevitável: ambos usam APUs AMD com RDNA 2, mas o Steam Deck usa o Van Gogh — um chip muito menor, com apenas 8 CUs, projetado para eficiência energética num portátil. O BC-250 tem cinco vezes mais CUs, o que se traduz em desempenho gráfico consideravelmente maior — mas também em consumo de energia muito mais alto e sem o fator de portabilidade. Em termos de posicionamento, o BC-250 fica entre o Steam Deck e uma plataforma desktop de entrada real.
Comparado ao AMD Ryzen 7 8700G — o APU desktop mais potente da AMD disponível comercialmente hoje, com arquitetura Zen 4 e RDNA 3 —, o BC-250 fica para trás tanto em CPU quanto em GPU. O 8700G tem IPC muito superior graças ao Zen 4 e uma GPU integrada com 12 CUs RDNA 3, que apesar de ter menos CUs, são muito mais eficientes por unidade. O mercado avançou, e o Zen 2 ficou para trás.
O que isso significa para você
- Gamer casual com orçamento mínimo (fora do Brasil): O BC-250 com 40 CUs desbloqueados é uma opção legítima para 1080p em jogos menos exigentes. Se você está nos EUA e consegue o chip por menos de US$ 150, pode ser uma entrada barata no PC gaming. Espere jogar com configurações médias/baixas e aceite as limitações de driver.
- Gamer brasileiro: Não vale a pena. O custo de importação destrói a proposta de valor. Com o mesmo dinheiro você compra hardware nacional mais capaz e com suporte oficial.
- Entusiasta e desenvolvedor: O projeto é fascinante do ponto de vista técnico. Se você quer entender a arquitetura do PS5, experimentar com drivers personalizados ou desenvolver software para a plataforma, o BC-250 é único. Mas saiba que está entrando num projeto comunitário, não num produto comercial.
- Criador de conteúdo / trabalho: Zero sentido. Para renderização, edição de vídeo ou cargas de trabalho de IA, o Zen 2 e a GPU integrada são insuficientes em 2026. Invista num APU moderno ou numa plataforma discreta.
- Custo-benefício no Brasil: Ruim. A relação câmbio + impostos + limitações de driver = produto de nicho para entusiastas com paciência e disposição para lidar com instabilidades.
O BC-250 é um dos projetos mais interessantes que a comunidade de hardware já produziu — pegar o chip de um console fechado e fazê-lo funcionar como um PC funcional, com recursos desbloqueados que nem a Sony usou, é uma façanha técnica genuína. Mas interessante e prático são coisas diferentes. Em 2026, com APUs modernos como o Ryzen 8000G disponíveis e o mercado de GPUs usadas cheio de opções, o BC-250 é uma curiosidade fascinante para entusiastas — não uma recomendação séria de compra, especialmente no Brasil.



