NVIDIA: o nome quase nunca existiu e a empresa quase faliu em 1996

NVIDIA: o nome quase nunca existiu e a empresa quase faliu em 1996

Toda vez que você olha para uma placa de vídeo GeForce ou acompanha o valor de mercado astronômico da NVIDIA — que chegou a superar US$ 3 trilhões em 2024 —, é difícil imaginar que essa empresa quase desapareceu antes de completar quatro anos de existência. Ou que seu nome foi tirado de uma lista gerada no Lotus 1-2-3, o software de planilhas dos anos 80. A história da NVIDIA é uma daquelas narrativas de Vale do Silício que mistura genialidade, apostas insanas e uma dose cavaleira de sorte — e ela começa muito antes da primeira GeForce.

A pergunta que poucos se fazem: o que significa “NVIDIA”? A resposta oficial é mais prosaica do que a grandiosidade atual da empresa sugere. E o quase colapso de 1996 é um episódio tão dramático que, se tivesse terminado diferente, o mercado de GPUs — e possivelmente a revolução da inteligência artificial dos anos 2020 — teria tomado um rumo completamente diferente.

A origem do nome: uma planilha e o prefixo do futuro

Em abril de 1993, três engenheiros — Jensen Huang, então com 30 anos, Chris Malachowsky e Curtis Priem — fundaram a empresa num Denny’s em San Jose, Califórnia. Huang vinha da LSI Logic e da AMD; Malachowsky e Priem, da Sun Microsystems. O trio tinha uma convicção: o processamento gráfico especializado seria o próximo grande salto da computação pessoal, e ninguém estava fazendo isso direito.

Na hora de batizar a empresa, a equipe recorreu a um método curioso: criaram uma lista de nomes candidatos numa planilha do Lotus 1-2-3 — o Excel da época — e foram eliminando opções. Segundo relatos documentados em perfis jornalísticos da empresa, incluindo cobertura da Wired e do livro The Nvidia Way, de Tae Kim, o nome escolhido foi construído a partir do prefixo latino invidia, que significa “inveja” em latim e italiano. A ideia era que os produtos da empresa seriam tão bons que os concorrentes os invejariam. O “N” inicial virou “NV” nos arquivos internos — as primeiras GPUs da empresa usavam o codinome de projeto “NV1”, “NV2” e assim por diante.

O nome NVIDIA vem do latim invidia — “inveja” — porque os fundadores queriam criar produtos que a concorrência fosse obrigada a invejar. Trinta anos depois, é difícil argumentar que erraram na ambição.

Há uma camada extra: em inglês, o prefixo nv também remete a envy (inveja), criando um trocadilho bilíngue intencional. O nome completo “NVIDIA” foi registrado com o “IA” no final, que décadas depois ganhou um significado acidental e perfeito: Inteligência Artificial. Jensen Huang costuma brincar com isso em entrevistas, mas a coincidência é real — o nome foi escolhido antes de qualquer visão de IA.

O famoso Denny's de San Jose onde a NVIDIA foi fundada em 1993
O famoso Denny’s de San Jose onde a NVIDIA foi fundada em 1993

Os primeiros anos: apostas erradas e um chip problemático

A NVIDIA nasceu com capital de risco da Sequoia Capital e da Sutter Hill Ventures — um voto de confiança significativo para uma startup de hardware numa época em que o mercado gráfico era dominado por empresas como 3dfx, S3 e Matrox. O primeiro produto da empresa, o NV1, lançado em 1995, foi uma aposta técnica ousada e, em retrospecto, equivocada.

O NV1 usava uma abordagem de renderização baseada em superfícies quádricas (quadratic surfaces) em vez de triângulos — o padrão que toda a indústria já estava convergindo. A lógica interna fazia sentido: quádricas eram matematicamente elegantes para representar objetos curvos. O problema é que a Microsoft estava prestes a lançar a Direct3D, uma API gráfica que padronizaria triângulos como primitiva universal. A NVIDIA tinha apostado no cavalo errado.

Para piorar, a empresa havia fechado um contrato com a Sega para desenvolver o chip gráfico do videogame Saturn no mercado norte-americano — o NV2. O projeto consumiu recursos enormes. Quando a Sega cancelou o contrato (optando por uma solução diferente para o Saturn nos EUA), a NVIDIA ficou com um chip sem cliente, sem produto comercializável e com o caixa derretendo.

1996: o momento em que tudo quase acabou

Em meados de 1996, a situação era crítica. A NVIDIA tinha aproximadamente US$ 5 milhões em caixa — suficiente para pagar os funcionários por cerca de três meses. O NV1 havia fracassado comercialmente. O contrato com a Sega tinha evaporado. A empresa tinha cerca de 100 funcionários que dependiam de seus salários. Jensen Huang, em entrevistas posteriores documentadas pela imprensa especializada, descreveu esse período como o mais sombrio da história da empresa: ele sabia que teria que demitir quase todos se não encontrasse uma saída em semanas.

A decisão que salvou a NVIDIA foi tão pragmática quanto dolorosa: abandonar completamente a arquitetura de quádricas, engolir o prejuízo do NV1 e do NV2, e recomeçar do zero com triângulos e compatibilidade com a OpenGL e a futura Direct3D. Isso significava jogar fora anos de trabalho de engenharia. Huang reuniu a equipe, explicou a situação sem eufemismos — “vamos falir em três meses se não mudarmos” — e pediu um esforço concentrado para entregar um novo chip em tempo recorde.

O RIVA 128, o chip que salvou a NVIDIA da falência em 1997
O RIVA 128, o chip que salvou a NVIDIA da falência em 1997

O resultado foi o NV3, lançado em agosto de 1997 sob o nome comercial RIVA 128 (Rapid Intensive Visual Architecture). O chip foi desenvolvido em tempo extraordinariamente curto para os padrões da indústria — menos de um ano de ciclo completo de design. Era compatível com Direct3D e OpenGL, renderizava triângulos com eficiência e, crucialmente, era rápido o suficiente para impressionar. O RIVA 128 vendeu um milhão de unidades em quatro meses, segundo dados citados pela própria NVIDIA em materiais históricos. A empresa estava salva.

Da sobrevivência ao domínio: a linha do tempo do salto

AnoProduto / EventoSignificado
1993Fundação da NVIDIAJensen Huang, Malachowsky e Priem num Denny’s
1995NV1 / RIVA (quádricas)Primeiro chip — aposta técnica errada
1996Cancelamento Sega + crise de caixaEmpresa a 3 meses da falência
1997RIVA 128 (NV3)Chip que salvou a empresa; 1M de unidades em 4 meses
1999GeForce 256 (NV10)Primeiro chip chamado oficialmente de “GPU” pelo fabricante
2006Lançamento do CUDAPlataforma que abriu a GPU para computação geral
2012AlexNet roda em GPUs NVIDIAMarco que conectou NVIDIA ao deep learning moderno
2024Valor de mercado ultrapassa US$ 3 triEmpresa mais valiosa do mundo por períodos

Dois anos após o RIVA 128, em 1999, a NVIDIA lançou a GeForce 256 — e foi nesse momento que a empresa cunhou oficialmente o termo GPU (Graphics Processing Unit, Unidade de Processamento Gráfico). O marketing era agressivo, mas o hardware justificava: a GeForce 256 era o primeiro chip de consumo a realizar transformações geométricas e iluminação em hardware (T&L — Transform and Lighting), aliviando a CPU dessa tarefa. O termo “GPU” pegou, virou padrão da indústria e hoje nomeia a categoria inteira de chips — inclusive os da AMD e Intel.

O legado acidental: de gráficos para inteligência artificial

A guinada mais improvável da história da NVIDIA não foi sobreviver a 1996 — foi o que aconteceu com o CUDA, lançado em 2006. A plataforma permitia usar as centenas de núcleos paralelos de uma GPU para cálculos de propósito geral, não apenas gráficos. No início, parecia uma ferramenta de nicho para simulações científicas. Então, em 2012, pesquisadores da Universidade de Toronto usaram GPUs NVIDIA para treinar a rede neural AlexNet, que venceu a competição ImageNet com uma margem histórica — e o mundo da inteligência artificial percebeu que as GPUs eram o hardware ideal para deep learning.

O resto é a história que vivemos em 2026: a NVIDIA domina o mercado de chips para IA com suas GPUs da série H e B (Hopper e Blackwell), e a demanda por seus produtos é tão alta que governos e grandes empresas de tecnologia brigam por alocações de hardware. Tudo isso tem uma linha direta com aquela reunião de crise em 1996, quando Huang decidiu que a empresa mudaria de curso ou morreria.

O ângulo brasileiro: NVIDIA no Brasil então e agora

Para o consumidor brasileiro, a NVIDIA sempre foi sinônimo de aspiração cara — e o câmbio nunca ajudou. No final dos anos 90, uma GeForce 256 custava em torno de US$ 299 nos EUA, o equivalente a um salário mínimo brasileiro da época convertido na cotação do dólar pós-Plano Real. Hoje, em 2026, as GPUs de ponta da empresa chegam ao Brasil com impostos de importação, ICMS e margens de distribuição que podem dobrar o preço americano. Uma RTX 5090, por exemplo, anunciada a US$ 1.999 nos EUA, pode ultrapassar R$ 20.000 nas prateleiras nacionais dependendo do câmbio.

Mas o impacto vai além do gamer que monta um PC. Empresas brasileiras de tecnologia, bancos e startups de IA dependem de infraestrutura baseada em chips NVIDIA — seja em data centers próprios ou em serviços de nuvem. A empresa que quase faliu em 1996 num escritório em Sunnyvale hoje influencia diretamente o custo de computação em nuvem que startups brasileiras pagam mensalmente.

Fatos rápidos que você provavelmente não sabia

  • Jensen Huang tem a NVIDIA tatuda no braço — literalmente. O CEO mostrou a tatuagem do logo da empresa em eventos públicos, incluindo a CES 2024.
  • O primeiro escritório ficava em Sunnyvale, não em Santa Clara onde a empresa está sediada hoje. A mudança veio com o crescimento pós-RIVA 128.
  • A 3dfx, maior rival da NVIDIA nos anos 90, foi adquirida pela própria NVIDIA em 2000 — após a GeForce ter destruído a Voodoo no mercado. A NVIDIA comprou os ativos e as patentes da concorrente que um dia pareceu imbatível.
  • O termo “GPU” foi registrado como marca pela NVIDIA antes de virar genérico — hoje é usado livremente, mas foi a empresa que o popularizou com o lançamento da GeForce 256 em 1999.
  • Chris Malachowsky e Curtis Priem, os cofundadores menos famosos, saíram da empresa em momentos diferentes mas mantiveram participações acionárias que os tornaram bilionários.

A história da NVIDIA é, no fundo, uma lição sobre o quanto o sucesso tecnológico depende de saber quando jogar fora o que você construiu e recomeçar. O nome pode ter vindo de uma planilha e de uma palavra latina para inveja — mas o que a empresa construiu com ele, começando do quase nada em 1996, é um dos arcos mais extraordinários da história da tecnologia moderna.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que significa o nome NVIDIA?

NVIDIA deriva do latim ‘invidia’, que significa ‘inveja’. Os fundadores queriam um nome que sugerisse que os concorrentes invejassem seus produtos. Em inglês, o prefixo remete também a ‘envy’. O sufixo ‘IA’ ganhou significado acidental décadas depois, com a ascensão da inteligência artificial.

Quando a NVIDIA quase faliu?

Em 1996, após o fracasso do chip NV1 e o cancelamento do contrato com a Sega, a empresa tinha caixa para cerca de três meses. Jensen Huang tomou a decisão de abandonar a arquitetura anterior e desenvolver o RIVA 128 em tempo recorde, o que salvou a empresa em 1997.

Quem fundou a NVIDIA e onde?

A NVIDIA foi fundada em abril de 1993 por Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem num restaurante Denny’s em San Jose, Califórnia. Os três vinham de empresas como AMD, LSI Logic e Sun Microsystems.

A NVIDIA inventou o termo GPU?

Sim. A NVIDIA popularizou e cunhou oficialmente o termo GPU (Graphics Processing Unit) com o lançamento da GeForce 256 em 1999. O chip foi o primeiro de consumo a executar transformações geométricas e iluminação em hardware, e o nome ‘GPU’ acabou se tornando o padrão da indústria inteira.

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