Uma placa de vídeo de mineração de criptomoedas que custava menos de R$ 600 e virou, da noite para o dia, um acelerador de IA disputado a mais de R$ 5.500. Esse é o cenário surreal que tomou conta do mercado de hardware na última semana, depois que uma ferramenta não oficial conseguiu desbloquear memória VRAM oculta nas GPUs NVIDIA CMP 170HX — elevando a capacidade de 8 GB ou 10 GB para até incríveis 64 GB ou 80 GB. Segundo o Wccftech, os preços dessas placas explodiram mais de 900% em questão de horas no eBay, e o fenômeno já chegou ao radar da comunidade de IA local no Brasil.
Para entender por que isso é ao mesmo tempo fascinante e perturbador, é preciso voltar ao DNA dessas GPUs — e compreender como a NVIDIA estrutura seus produtos para mercados completamente diferentes, criando, sem querer, uma bomba-relógio de valor oculto que qualquer ferramenta de terceiros pode detonar.
O que é a CMP 170HX e por que ela existia
A linha CMP (Cryptocurrency Mining Processor) foi criada pela NVIDIA em 2021 como uma resposta ao boom das mineradoras que esvaziavam prateleiras de GeForce. A ideia era simples: oferecer GPUs sem saída de vídeo, sem drivers de jogo e com eficiência otimizada para proof-of-work — e assim desviar a demanda das placas gamers. A CMP 170HX, em particular, é baseada na arquitetura Ampere (a mesma da RTX 3000), mas com especificações castradas para mineração: o modelo de 8 GB e o de 10 GB eram, na prática, versões mutiladas de chips muito mais capazes.
Com o colapso do mercado de criptomoedas em 2022 e a transição do Ethereum para proof-of-stake, essas placas perderam sua função original e inundaram o mercado secundário por valores irrisórios. Mineradoras desmontaram fazendas inteiras e jogaram centenas de CMP 170HX no mercado por menos de US$ 100 a unidade — cerca de R$ 580 ao câmbio atual. Para qualquer uso convencional, eram inúteis: sem vídeo, sem suporte a jogos, sem drivers GeForce.

A ferramenta que mudou tudo: como o desbloqueio funciona
De acordo com o Wccftech, uma ferramenta desenvolvida por entusiastas de IA conseguiu identificar que os chips presentes na CMP 170HX possuem capacidade de endereçamento de memória muito superior ao que a NVIDIA havia habilitado via firmware. Em termos técnicos: o controlador de memória do chip suporta configurações de VRAM muito maiores, mas a NVIDIA havia bloqueado esse acesso por software para diferenciar os SKUs (Stock Keeping Units — as variantes do produto) e proteger seu portfólio de GPUs profissionais como as linhas A-Series e H100.
A ferramenta em questão modifica as tabelas de inicialização do firmware da GPU, fazendo o controlador reconhecer e mapear chips de memória HBM ou GDDR adicionais que estavam fisicamente presentes na placa, mas ignorados. O resultado prático: modelos com 8 GB saltam para 64 GB de VRAM, e os de 10 GB chegam a 80 GB — território que, nas GPUs NVIDIA oficiais, só existe na H100 e na A100, placas que custam dezenas de milhares de dólares.
“GPUs com 80 GB de VRAM por menos de US$ 1.000 é exatamente o tipo de disrupção que a comunidade de IA local estava esperando — mas a pergunta real é se o desempenho entrega o que a especificação promete.”
É importante ressaltar que o Wccftech usa o termo allegedly (supostamente) ao descrever o funcionamento — o que indica que a verificação independente ainda está em curso. A NVIDIA não se pronunciou oficialmente sobre o desbloqueio até o fechamento desta matéria.
Comparativo: CMP 170HX desbloqueada vs. GPUs de IA do mercado
| GPU | VRAM | Arquitetura | Preço estimado (USD) | Preço estimado (BRL) |
|---|---|---|---|---|
| CMP 170HX (original) | 8–10 GB | Ampere | ~$80–100 | ~R$ 470–580 |
| CMP 170HX (desbloqueada) | 64–80 GB | Ampere | $500–1.000+ | ~R$ 2.900–5.800 |
| NVIDIA A100 80GB | 80 GB HBM2e | Ampere | ~$10.000–15.000 | ~R$ 58.000–87.000 |
| NVIDIA H100 80GB | 80 GB HBM3 | Hopper | ~$25.000–30.000 | ~R$ 145.000–174.000 |
| RTX 2080 Ti 22GB (mod) | 22 GB GDDR6 | Turing | ~$499 | ~R$ 2.900 |
Preços em BRL calculados com câmbio aproximado de R$ 5,80/USD. Valores de mercado secundário sujeitos a variação. Fontes: Wccftech, Tom’s Hardware.
Por que a VRAM importa tanto para IA local
Para quem roda modelos de linguagem grandes (LLMs) localmente — como LLaMA, Mistral ou variantes do GPT — a VRAM é o gargalo absoluto. Um modelo como o LLaMA 3 70B em precisão completa (FP16) exige aproximadamente 140 GB de VRAM, mas versões quantizadas em 4-bit cabem em cerca de 40–50 GB. Isso significa que uma GPU com 64–80 GB de VRAM desbloqueada poderia, teoricamente, rodar modelos que hoje exigem setups de múltiplas GPUs de servidor — ou assinaturas caras de API em nuvem.
O problema é que VRAM não é tudo. A CMP 170HX é baseada em Ampere, uma geração de 2020. Seu desempenho de inferência — medido em TFLOPS — fica muito abaixo das GPUs modernas como a H100 ou mesmo a RTX 4090. Ter 80 GB de VRAM em um chip com largura de banda de memória e compute de 2020 é como ter um armazém enorme com uma porta estreita: você cabe muito, mas o fluxo é lento. Para inferência de modelos médios, pode ser viável. Para treinamento ou inferência de ponta, o gargalo de compute vai frustrar.

O fenômeno dos mods de VRAM: não é a primeira vez
Este não é um caso isolado. Conforme reportado pelo Tom’s Hardware, RTX 2080 Ti com 22 GB de VRAM modificados já estão sendo vendidas no eBay por cerca de US$ 499 — o dobro de GDDR6 instalado por técnicos especializados em Hong Kong. A comunidade de IA local descobriu que GPUs antigas com VRAM expandida podem ser mais úteis do que GPUs novas com pouca memória para certas cargas de trabalho.
A diferença no caso da CMP 170HX é a escala: existem centenas de milhares dessas placas no mercado secundário global, muitas delas no Brasil — onde mineradoras operaram em larga escala durante o boom cripto. O desbloqueio via software (sem necessidade de solda ou modificação física) é muito mais acessível do que um mod de hardware, o que explica a explosão de preços praticamente instantânea.
Riscos, limitações e o que a NVIDIA pode fazer
Há vários pontos de atenção antes de qualquer entusiasta sair comprando CMP 170HX no Mercado Livre:
- Verificação independente pendente: O Wccftech usa linguagem cautelosa. Benchmarks reais com os 64/80 GB desbloqueados ainda não foram publicados por fontes independentes confiáveis.
- Estabilidade do firmware: Modificações de firmware não oficiais podem resultar em instabilidade, travamentos ou dano permanente à GPU.
- Sem suporte oficial: A NVIDIA não oferece drivers GeForce para a CMP 170HX. O suporte a CUDA existe, mas é limitado e pode ser revogado em futuras atualizações.
- Largura de banda de memória: Mesmo com mais VRAM, a largura de banda do barramento original da placa pode criar gargalos sérios em workloads de IA intensivos.
- Resposta da NVIDIA: A fabricante pode lançar um patch de firmware que reverta ou bloqueie o desbloqueio, como já fez em situações similares com o hash rate limiter das RTX 3000.
Ângulo brasileiro: oportunidade real ou cilada?
No Brasil, o cenário tem nuances importantes. CMP 170HX usadas circulam no Mercado Livre e OLX por valores entre R$ 400 e R$ 800 — placas que mineradoras brasileiras liquidaram nos últimos dois anos. Com o desbloqueio, o valor percebido salta para a casa dos R$ 3.000–6.000, criando uma janela de arbitragem tentadora para quem ainda encontrar unidades baratas.
Mas atenção: importar uma CMP 170HX do exterior hoje já não faz sentido financeiro, pois os preços no eBay já refletem o novo patamar pós-desbloqueio. Quem vai lucrar são os que já têm as placas em mãos. Para quem quer montar um setup de IA local do zero, a relação custo-benefício ainda é questionável diante das incertezas técnicas — e uma placa de vídeo moderna com suporte oficial pode ser mais segura e produtiva a longo prazo.
Outro fator relevante: a importação de GPUs no Brasil sofre com alíquotas de imposto que podem elevar o preço final em 60–80% sobre o valor declarado, tornando qualquer cálculo de custo-benefício ainda mais delicado.
O que isso significa para você
Para gamers: Nenhum impacto direto. A CMP 170HX não tem saída de vídeo e não roda jogos. O fenômeno é irrelevante para quem busca performance em games.
Para entusiastas de IA local (LLM runners): Alta relevância, mas com cautela. Se você já tem uma CMP 170HX, vale acompanhar de perto os primeiros benchmarks independentes com o desbloqueio. Se der certo, você pode ter uma GPU com 64–80 GB de VRAM por uma fração do custo de uma A100. Se você não tem, espere a validação antes de gastar.
Para criadores de conteúdo e profissionais: O potencial é interessante para quem roda modelos de difusão (Stable Diffusion, Flux) ou LLMs localmente para automação. Mas a ausência de suporte a drivers convencionais e a incerteza sobre estabilidade tornam a aposta arriscada para uso profissional.
Custo-benefício: Com os preços já inflados no mercado internacional, a janela de oportunidade para comprar barato e desbloquear já fechou para a maioria. Quem tem as placas em casa pode explorar. Quem vai comprar agora está pagando pelo hype — e correndo o risco de a NVIDIA fechar essa brecha em dias. Para quem quer investir em GPU com segurança e suporte garantido, o mercado oficial ainda é o caminho mais sólido.
O episódio da CMP 170HX é mais um capítulo na história de como a corrida por VRAM está transformando o mercado de hardware — e como a comunidade de IA local está disposta a ir longe para fugir dos preços proibitivos das GPUs de servidor. A NVIDIA, que criou essas placas para resolver um problema de oferta, pode ter inadvertidamente criado outro.



