Pela primeira vez na história do Steam, as placas de vídeo com 16 GB de VRAM ultrapassaram as de 8 GB como configuração mais popular entre os jogadores. O levantamento mais recente da Steam Hardware Survey, referente a julho de 2026, também registrou outro marco inédito: CPUs com 8 núcleos desbancaram os hexa-cores como processador mais comum na plataforma. Segundo o Tom’s Hardware, que analisou os dados em detalhes, os dois movimentos juntos sinalizam uma virada geracional no hardware de gaming — e têm implicações diretas para quem está pensando em montar ou atualizar um PC no Brasil.
Esses números não surgem do nada. Eles são o resultado de uma pressão crescente dos jogos modernos por mais memória gráfica e mais núcleos de processamento — uma tendência que vinha sendo discutida há anos, mas que agora se consolida nos dados reais de dezenas de milhões de usuários. Para o consumidor brasileiro, o timing é especialmente relevante: o mercado de GPUs passa por uma escassez de memória sem precedentes, os preços estão pressionados para cima e a escolha do hardware certo nunca foi tão crítica.
O que a Steam Hardware Survey realmente mede
Antes de mergulhar nos números, vale entender o que é e o que não é a Steam Hardware Survey. Ela é uma pesquisa voluntária e opt-in — ou seja, o usuário precisa aceitar participar — realizada mensalmente pela Valve entre os jogadores da plataforma. Com mais de 130 milhões de contas ativas, o survey representa uma amostra enorme, mas não universal: tende a sobrerrepresentar usuários mais engajados e com hardware mais recente, e subrepresentar jogadores de países emergentes com máquinas mais antigas. Dito isso, é o maior termômetro público do hardware de gaming que existe, e suas tendências são indicadores confiáveis do que está acontecendo no mercado.
16 GB de VRAM: de luxo a necessidade
Durante anos, 8 GB de VRAM foi o padrão de fato para gaming em 1080p e 1440p. A RTX 3070 com 8 GB, a RX 6700 XT com 12 GB e a própria RTX 4070 com 12 GB dominaram as vendas por muito tempo. Mas o cenário mudou. Títulos como Cyberpunk 2077 com ray tracing, Alan Wake 2, Hogwarts Legacy e os jogos mais recentes com texturas em alta resolução e recursos de IA como DLSS e FSR passaram a consumir quantidades crescentes de memória gráfica. Não é raro ver picos de 10 GB, 12 GB ou até mais em configurações ultra a 1440p.

O salto para 16 GB como padrão popular foi impulsionado principalmente pela chegada da RTX 4070 Ti Super (16 GB) e da RX 7900 GRE (16 GB), além da consolidação da RTX 3080 10 GB e da RX 6800 XT 16 GB no mercado de segunda mão. A NVIDIA, que por anos resistiu a colocar mais de 8 GB nas suas placas intermediárias — gerando críticas justificadas —, cedeu à pressão do mercado na linha RTX 50: a RTX 5070 já vem com 12 GB, e a RTX 5070 Ti com 16 GB de GDDR7, enquanto a RTX 5080 traz 16 GB e a RTX 5090, 32 GB.
“Pela primeira vez na história do Steam, GPUs com 16 GB de VRAM ultrapassaram as de 8 GB como configuração mais popular — um marco que sinaliza que mais memória gráfica deixou de ser diferencial e virou requisito.”
CPUs de 8 núcleos: o novo mínimo recomendado
A virada nos processadores é igualmente significativa. Por anos, os hexa-cores (6 núcleos) foram o ponto de entrada ideal para gaming — o Ryzen 5 3600 foi, durante muito tempo, o processador mais vendido no Steam. Agora, os octa-cores (8 núcleos) assumiram a liderança. Isso reflete tanto a popularização de CPUs como o Ryzen 5 5600X (6 núcleos, mas com muitos usuários migrando para o 5800X3D ou 7700X de 8 núcleos), quanto a chegada massiva dos Intel Core i5 de 12ª e 13ª geração, que trazem 6 P-cores + E-cores somando 12 threads ou mais.
Do ponto de vista dos games, a demanda por mais núcleos é real. Motores como o Unreal Engine 5, com Nanite e Lumen, distribuem carga de forma mais eficiente entre múltiplos núcleos. Títulos de mundo aberto, simulações e jogos com física complexa se beneficiam diretamente. A Microsoft também contribuiu para isso: o Xbox Series X usa um Zen 2 de 8 núcleos como referência, e os ports para PC tendem a ser otimizados pensando nessa base.
Comparativo: ontem vs. hoje no Steam
| Categoria | Configuração anterior líder | Nova configuração líder (jul/2026) |
|---|---|---|
| VRAM da GPU | 8 GB | 16 GB |
| Núcleos de CPU | 6 núcleos (hexa-core) | 8 núcleos (octa-core) |
| GPU mais popular (histórico) | RTX 2060 / GTX 1060 | RTX 3060 / RTX 4060 Ti |
| CPU mais popular (histórico) | Ryzen 5 3600 / i5-9600K | Ryzen 5 5600X / i5-12400F |
Fonte: Tom’s Hardware / Wccftech com base na Steam Hardware Survey de julho de 2026.
A crise de memória que complica tudo
Aqui entra um fator que torna essa análise ainda mais urgente para o consumidor brasileiro: o mercado de memória — tanto RAM quanto VRAM — está sob pressão severa. Segundo o TechPowerUp, toda a capacidade de produção de memória para 2027 já está contratada pelos grandes players, sem espaço para novos compradores. O PC Gamer reportou que a situação é tão crítica que a Gigabyte chegou a relançar placa-mãe com chipset B550 para socket AM4 — uma plataforma de quatro anos atrás — justamente para aproveitar estoques de memória DDR4 que ainda existem no mercado.
Para o consumidor final, isso se traduz em preços de memória RAM e GPUs mais altos do que o esperado. No Brasil, onde o câmbio já encarece o hardware em relação aos EUA e Europa, o impacto é amplificado. Uma placa de vídeo com 16 GB de VRAM que custaria em torno de R$ 2.800 a R$ 3.500 na faixa intermediária há um ano atrás pode estar sofrendo pressão de alta. Vale acompanhar os preços com atenção e, se possível, antecipar a compra antes de novos reajustes.

O que isso significa para o Brasil na prática
O Brasil tem uma realidade de hardware particular. Boa parte dos jogadores ainda usa GPUs de geração anterior — GTX 1660, RTX 2060, RX 580 — porque o custo de atualização é proibitivo com o câmbio atual. A Steam Hardware Survey tende a capturar menos esse perfil, mas a tendência global ainda serve como bússola: se os jogos estão sendo desenvolvidos tendo como referência 16 GB de VRAM e 8 núcleos de CPU, quem está abaixo disso vai sentir cada vez mais limitações nos próximos dois a três anos.
A boa notícia é que o mercado de segunda mão no Brasil ganhou opções interessantes. GPUs como a RX 6800 XT (16 GB), RTX 3080 10 GB e RTX 3070 Ti 8 GB aparecem com frequência em grupos de compra e venda. Para quem prioriza custo-benefício, uma RX 6800 XT usada em bom estado pode ser uma das melhores decisões de hardware hoje — entrega 16 GB de VRAM, performance sólida em 1440p e ainda se beneficia do driver AMD Adrenalin atualizado. Já no segmento de processadores, o Ryzen 5 5600X e o i5-12400F continuam sendo as escolhas mais racionais para quem quer entrar no clube dos octa-cores sem gastar uma fortuna.
O que isso significa para você
- Gamer que quer montar ou atualizar agora: Não compre uma GPU nova com menos de 12 GB de VRAM em 2026. O mínimo recomendado subiu. Se o orçamento permitir, mire em 16 GB — seja uma RTX 4070 Ti Super, RX 7900 GRE ou equivalente usado. Para CPU, qualquer octa-core moderno (Ryzen 7 5700X, i5-13400F) já coloca você no grupo dominante do Steam.
- Criador de conteúdo e streamer: A VRAM importa ainda mais para você. Edição de vídeo em 4K, renderização e streaming simultâneo consomem memória gráfica agressivamente. 16 GB de VRAM é o novo piso; 24 GB ou 32 GB começa a fazer sentido para workloads pesados.
- Quem usa o PC para trabalho e IA local: Rodar modelos de linguagem locais (LLMs) como LLaMA, Mistral ou Stable Diffusion exige VRAM acima de tudo. Aqui, 16 GB é o mínimo funcional — e quanto mais, melhor. O movimento do Steam confirma que o mercado está se movendo nessa direção, o que deve pressionar fabricantes a entregar mais VRAM em todas as faixas.
- Custo-benefício / orçamento limitado: Se você ainda tem uma GTX 1660 Super ou RTX 2060, não entre em pânico — os jogos ainda rodam, especialmente em 1080p. Mas comece a planejar a próxima atualização com 16 GB de VRAM como meta. No mercado usado, isso já é viável por preços razoáveis. Evite comprar GPUs de 8 GB novas: você estará pagando por hardware que já está ficando para trás.
Veredito: o mercado deu o recado
A Steam Hardware Survey raramente mente. Quando ela mostra que 16 GB de VRAM e 8 núcleos de CPU se tornaram o padrão dominante, não é hype de fabricante nem especulação de analista — é o retrato real de como dezenas de milhões de jogadores estão equipando seus PCs. O mercado chegou a esse ponto mais rápido do que muitos esperavam, em parte por pressão dos jogos, em parte pela chegada de GPUs com mais memória a preços mais acessíveis e em parte pelo ciclo natural de renovação de hardware.
Para o consumidor brasileiro, a mensagem é clara: se você está planejando uma atualização, não economize em VRAM. A crise de memória pode encarecer as coisas no curto prazo, mas comprar hardware subdimensionado para economizar agora pode sair mais caro em dois anos, quando você se ver forçado a trocar novamente. Planeje com margem — 16 GB de VRAM e 8 núcleos de CPU são o novo mínimo para gaming sério, e os dados do Steam acabam de confirmar isso de vez.


