Edge perde uBlock Origin: o fim dos bloqueadores MV2 no Windows

Edge perde uBlock Origin: o fim dos bloqueadores MV2 no Windows

Depois do Chrome, chegou a vez do Microsoft Edge dar adeus ao uBlock Origin e a todas as extensões baseadas no padrão Manifest V2 (MV2). A mudança, confirmada pela Microsoft e reportada pelo Tecnoblog, encerra um ciclo que começou quando o Google anunciou a descontinuação do MV2 em 2022 e que agora atinge o segundo navegador mais usado no Brasil. Para quem usa o Windows 11 com Edge como padrão — e são muitos, especialmente em ambientes corporativos — a notícia é mais relevante do que parece: o bloqueador de anúncios mais eficiente da história dos navegadores está com os dias contados nessa plataforma.

O impacto vai além do incômodo de ver mais anúncios. Estamos falando de uma mudança estrutural na forma como extensões de navegador funcionam, com consequências diretas para privacidade, segurança e até velocidade de navegação. E para o usuário brasileiro — que convive com sites repletos de pop-ups, redirecionamentos e trackers agressivos — perder o uBlock Origin sem um substituto à altura é um problema real.

O que é o Manifest V2 e por que ele está sendo aposentado

Para entender a gravidade da situação, é preciso entender o que é o Manifest V2. Trata-se de uma especificação técnica que define como extensões de navegador interagem com o conteúdo das páginas. No modelo MV2, extensões como o uBlock Origin usam uma API chamada webRequest em modo blocking: elas interceptam requisições de rede em tempo real, antes que o conteúdo seja carregado, e decidem se bloqueiam ou permitem cada elemento. É exatamente essa capacidade que torna o uBlock Origin tão eficiente — ele age na fonte, antes que o anúncio, o tracker ou o script malicioso sequer chegue ao navegador.

O Manifest V3 (MV3), o substituto, troca essa API por uma abordagem declarativa: a extensão entrega uma lista de regras ao navegador, e é o próprio navegador que decide o que bloquear. O problema é que essa lista tem um limite de entradas (inicialmente 30 mil no Chrome, depois expandido para 330 mil após pressão da comunidade) e não permite a flexibilidade dinâmica que o uBlock Origin usa para bloquear conteúdo de forma adaptativa. Em outras palavras, o MV3 é estruturalmente menos poderoso para bloqueio de anúncios — e isso não é acidente.

“O Manifest V3 não é uma atualização de segurança — é uma restrição deliberada que beneficia quem vende anúncios e prejudica quem quer se proteger deles.”

Raymond Hill, criador do uBlock Origin, em declaração pública sobre a transição

A linha do tempo: do Chrome ao Edge

O Google foi o primeiro a mover as peças. A empresa anunciou o fim do suporte ao MV2 no Chrome em 2022, com uma transição gradual que se arrastou por anos por conta da resistência da comunidade. Em 2025, o Chrome efetivamente passou a desabilitar extensões MV2 por padrão para a maioria dos usuários, exibindo avisos e sugerindo alternativas MV3. Agora, conforme reportado pelo Tecnoblog, a Microsoft confirmou que o Edge seguirá o mesmo caminho — o que faz sentido técnico, já que o Edge é baseado no Chromium, o mesmo motor de código aberto que sustenta o Chrome.

Microsoft Edge seguirá Chrome e removerá suporte ao Manifest V2
Microsoft Edge seguirá Chrome e removerá suporte ao Manifest V2

A diferença é que a Microsoft demorou mais para agir, provavelmente por conta da base corporativa do Edge — empresas que dependem de extensões legadas precisam de mais tempo para migrar. Mas a direção é a mesma, e o desfecho também será: o uBlock Origin clássico deixará de funcionar no Edge. O próprio Raymond Hill, criador da extensão, já lançou o uBlock Origin Lite, uma versão MV3 que funciona dentro das limitações do novo padrão — mas que ele mesmo admite ser significativamente menos eficaz que o original.

uBlock Origin vs. uBlock Origin Lite: a diferença que importa

CaracterísticauBlock Origin (MV2)uBlock Origin Lite (MV3)
API de bloqueiowebRequest (blocking)declarativeNetRequest
Limite de regrasSem limite práticoLimitado pelo navegador
Bloqueio de scripts inlineSim, completoParcial
Filtragem cosmética avançadaSimReduzida
Modo de filtragem dinâmicaSimNão
Atualização de listas em tempo realSimDepende do navegador
Proteção contra trackers avançadosAltaModerada

A tabela acima deixa claro: o Lite não é um substituto, é uma versão comprometida. Para o usuário comum, a diferença pode parecer sutil no dia a dia — menos anúncios bloqueados, alguns trackers passando pela grade. Mas para quem usa o bloqueador como ferramenta de segurança (bloqueando domínios maliciosos, scripts de mineração de criptomoedas e malvertising), a perda de capacidade é significativa.

Alternativas reais para quem não quer abrir mão da proteção

A boa notícia é que o fim do MV2 no Chrome e no Edge não significa o fim do bloqueio eficiente de anúncios — significa o fim dele nesses navegadores específicos. Existem alternativas robustas:

  • Firefox: A Mozilla confirmou que manterá suporte ao MV2 indefinidamente, ou pelo menos enquanto houver demanda. O uBlock Origin clássico funciona perfeitamente no Firefox e continuará funcionando. Para quem prioriza privacidade, esta é a recomendação mais direta.
  • Brave: O navegador baseado em Chromium tem seu próprio sistema de bloqueio nativo (Brave Shields), que opera no nível do navegador, antes mesmo das extensões, e não depende do MV2. É uma alternativa sólida para quem quer manter a base Chromium.
  • Vivaldi: Outro Chromium que implementou bloqueio nativo de anúncios e trackers, contornando parcialmente as limitações do MV3.
  • Pi-hole / AdGuard Home: Para usuários avançados, configurar um bloqueador a nível de rede (DNS) resolve o problema independentemente do navegador. Funciona em todos os dispositivos da rede, incluindo mobile.
Firefox mantém suporte ao MV2 e ao uBlock Origin clássico
Firefox mantém suporte ao MV2 e ao uBlock Origin clássico

O ângulo brasileiro: por que isso dói mais aqui

O Brasil tem algumas especificidades que tornam essa mudança mais impactante do que em outros mercados. Primeiro, o país está consistentemente entre os mais afetados por malvertising — anúncios que distribuem malware. Relatórios de empresas de segurança como Kaspersky e ESET colocam o Brasil no topo das listas de ataques via browser todos os anos. O uBlock Origin, nesse contexto, não é luxo: é uma camada de segurança que protege contra sequestros de navegador, cryptojackers e phishing servido via redes de anúncios comprometidas.

Segundo, o Edge é o navegador padrão do Windows 11, e no Brasil o Windows domina o mercado de desktops com mais de 80% de participação. Grande parte dos usuários — especialmente os menos técnicos — nunca trocou o Edge por outro navegador. São exatamente essas pessoas que dependem de extensões como o uBlock Origin para uma navegação minimamente segura, e são elas que serão mais afetadas pela mudança.

Terceiro, o custo de conexão no Brasil ainda é relevante em boa parte do país. Anúncios pesados em vídeo e banners de alta resolução consomem dados de planos limitados e tornam a navegação mais lenta em conexões menos robustas. Bloqueadores de anúncios têm um impacto mensurável no consumo de dados e na velocidade de carregamento de páginas — perder essa ferramenta vai custar, literalmente, kilobytes e megabytes a mais por sessão.

A questão maior: quem controla o que você vê

É impossível discutir essa mudança sem mencionar o elefante na sala: tanto o Google quanto a Microsoft têm modelos de negócio baseados em publicidade digital. O Google é, antes de tudo, uma empresa de anúncios. O Edge, apesar de ser da Microsoft, também exibe anúncios nativos na página de nova aba e tem integrações com redes de publicidade. Dizer que a migração para o MV3 é puramente motivada por segurança — como ambas as empresas argumentam — é, no mínimo, uma versão incompleta da história.

A Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de referência em direitos digitais, criticou publicamente a transição para o MV3 exatamente por esse motivo. A Mozilla, que não depende de receita publicitária própria da mesma forma, tomou uma posição diferente e manteve a compatibilidade com o MV2. Isso, por si só, diz muito sobre as motivações reais por trás da mudança.

O que isso significa para você

Se você é gamer: Provavelmente navega em sites de notícias, wikis e fóruns cheios de anúncios. A perda do uBlock Origin no Edge vai tornar essa experiência mais lenta e mais exposta a anúncios intrusivos. Recomendação direta: mude para o Firefox ou Brave e instale o uBlock Origin clássico agora, antes que a mudança force sua mão.

Se você cria conteúdo: Pesquisa, referências e navegação intensiva ficam mais lentas e mais arriscadas sem um bloqueador eficiente. O Firefox com uBlock Origin é a combinação mais robusta disponível hoje, especialmente para quem trabalha com muitas abas abertas.

Se você usa o PC para trabalho e IA: Em ambientes corporativos, o Edge ainda vai funcionar por um tempo com MV2 via políticas de grupo (Group Policy), mas isso é temporário. A recomendação para TI é começar a avaliar alternativas agora. O Pi-hole ou AdGuard Home a nível de rede é a solução mais escalável para proteger múltiplas máquinas.

Custo-benefício: Mudar de navegador custa zero reais. Instalar o uBlock Origin no Firefox também. Não fazer nada e continuar no Edge sem proteção pode custar caro — em dados consumidos, em lentidão e, no pior caso, em uma infecção por malware servido via anúncio. A conta é simples.

O fim do MV2 no Edge é mais um capítulo de uma batalha que já estava perdida nos navegadores baseados em Chromium. A resposta inteligente não é lamentar — é migrar para onde a proteção ainda funciona de verdade. O Firefox nunca pareceu tão relevante quanto agora.

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