Parecia que a DDR4 tinha sido aposentada de vez. Após anos sendo gradualmente substituída pela DDR5 — mais rápida, mais eficiente e com maior largura de banda —, a memória RAM da geração anterior estava caminhando tranquilamente para o museu do hardware. Mas o mercado de tecnologia raramente segue um roteiro previsível. Em 2026, com a crise global de chips derrubando os embarques de PCs em mais de 20% no terceiro trimestre e os preços de memória DDR5 atingindo patamares que travam upgrades, Intel e AMD tomaram uma decisão pragmática e um tanto surpreendente: trazer a DDR4 de volta à linha de frente, com suporte nativo em novos processadores.
Segundo reportagem do The Verge, tanto Intel quanto AMD estão desenvolvendo novos processadores com compatibilidade com DDR4, numa tacada que visa tornar o upgrade de PC mais acessível em meio à escassez de chips e à disparada dos preços de memória. A notícia ganhou mais peso quando a Gigabyte confirmou, via atualização de BIOS, que as próximas CPUs Intel para o soquete LGA 1700 — a linha Raptor Lake Next, esperada para o início de 2027 — suportarão tanto DDR4 quanto DDR5. Para o consumidor brasileiro, que já convive com câmbio pesado e tributação agressiva sobre eletrônicos, isso pode ser a diferença entre montar ou não um PC novo nos próximos meses.
A crise que ressuscitou a DDR4
Para entender o retorno da DDR4, é preciso olhar para o cenário macroeconômico do setor de semicondutores. Os embarques globais de PCs despencaram mais de 20% no terceiro trimestre de 2026, com Lenovo, HP e Dell sendo os mais afetados — juntos, as três gigantes enviaram 11,6 milhões de unidades a menos do que no mesmo período de 2025, segundo dados compilados pelo Tom’s Hardware. A causa principal: escassez de chips de memória, que elevou os preços de DDR5 a níveis proibitivos para boa parte do mercado.
Fabricantes de memória como Samsung e SK hynix, que vinham lucrando pesado com a demanda por HBM (High Bandwidth Memory) para IA, não expandiram capacidade de produção de DRAM convencional na proporção necessária. O resultado é um ciclo vicioso: menos chips disponíveis, preços mais altos, menos PCs vendidos. Os próprios fabricantes de memória estimam que a situação não deve se normalizar antes de 2027. É nesse vácuo que a DDR4 — cuja infraestrutura de produção já está amortizada e cujos preços são significativamente menores — encontrou sua janela de sobrevivência.

Raptor Lake Next: o plano da Intel para 2027
A confirmação mais concreta veio da Gigabyte. A fabricante taiwanesa lançou atualizações de BIOS para suas placas-mãe B760 e H610 — ambas com soquete LGA 1700 — adicionando suporte a processadores ainda não anunciados oficialmente pela Intel. A linha foi apelidada de Raptor Lake Next pela comunidade, e o detalhe mais relevante é a compatibilidade dual: os novos chips aceitarão módulos DDR4 e DDR5 na mesma plataforma.
Isso é relevante por duas razões. Primeiro, significa que quem já tem uma placa-mãe LGA 1700 — comprada para um Core i5-12400, i7-13700 ou qualquer Alder/Raptor Lake — pode, em tese, trocar apenas o processador e continuar usando a memória RAM que já possui, seja ela DDR4 ou DDR5. Segundo, abre espaço para que novas plataformas sejam montadas com DDR4, reduzindo o custo total do build em um momento em que cada centavo conta.
A Intel ainda não confirmou oficialmente datas ou especificações do Raptor Lake Next, mas o movimento da Gigabyte — que raramente lança suporte de BIOS sem alguma comunicação com o fabricante do chip — é um sinal robusto de que o lançamento está se aproximando. O alvo é o primeiro semestre de 2027.
AMD também está no jogo
A Intel não está sozinha nessa estratégia. Segundo o The Verge, a AMD também está trabalhando em processadores com suporte a DDR4 para responder à mesma pressão de mercado. Os detalhes são mais escassos no lado vermelho — nenhuma atualização de BIOS confirmou especificações concretas até o momento —, mas a lógica é idêntica: oferecer uma rota de upgrade mais barata para consumidores que não conseguem ou não querem pagar o preço atual da DDR5.
Vale lembrar que a AMD já tem histórico de manter compatibilidade de soquete por gerações — o AM4 durou de 2016 a 2022 —, então a ideia de suportar DDR4 em novos chips não é exatamente estranha ao DNA da empresa. A questão é saber em qual segmento isso se aplicará: se nas linhas mainstream (Ryzen 5/7) ou apenas em SKUs de entrada.
DDR4 vs DDR5: o que você perde (e o que ganha) voltando atrás
Antes de comemorar, é justo ser honesto sobre o que o retorno à DDR4 implica tecnicamente. A DDR5 não é só marketing: ela oferece largura de banda consideravelmente maior, latências melhoradas em configurações otimizadas e suporte a capacidades mais altas por módulo. Para workloads de IA, renderização e edição de vídeo em 4K, essa diferença é mensurável. Para gaming, a história é mais nuançada — a maioria dos jogos ainda é mais limitada por GPU do que por largura de banda de memória, e a diferença prática entre DDR4-3600 bem configurada e DDR5-6000 em títulos AAA costuma ser de menos de 5% em FPS.
| Especificação | DDR4 (típico 2026) | DDR5 (típico 2026) |
|---|---|---|
| Velocidade comum | 3200 – 4000 MHz | 5600 – 7200 MHz |
| Latência CAS típica | CL16 – CL18 | CL36 – CL46 |
| Preço médio 16 GB (EUA) | ~US$ 30–40 | ~US$ 70–100 |
| Preço médio 16 GB (BR, estimado) | ~R$ 200–280 | ~R$ 450–650 |
| Ganho em gaming (vs DDR4) | — | +3% a +8% em média |
| Ganho em workloads de IA/render | — | +15% a +30% |
Estimativas de preço no Brasil baseadas em câmbio e tributação típicos; valores podem variar conforme loja e disponibilidade.
“Os embarques de PCs caíram 15,8 milhões de unidades no terceiro trimestre de 2026, e fabricantes de memória estimam que a escassez não será resolvida antes de 2027.” — Tom’s Hardware
O ângulo brasileiro: por que isso importa muito aqui
No Brasil, o impacto da crise de memória é amplificado por fatores domésticos. O câmbio dólar-real, que oscila entre R$ 5,50 e R$ 6,00 ao longo de 2026, combinado com alíquotas de importação que podem chegar a 60% sobre eletrônicos (incluindo II, IPI, ICMS e PIS/COFINS), faz com que um kit de 16 GB DDR5 que custa US$ 80 lá fora chegue às prateleiras brasileiras por R$ 500 a R$ 700 — quando está disponível. A DDR4, com preço de fábrica já amortizado e produção em escala, fica na faixa de R$ 200 a R$ 280 pelo mesmo volume.
Essa diferença de R$ 300 a R$ 400 pode ser redirecionada para uma GPU melhor, um SSD mais rápido ou simplesmente tornar o build viável para quem tem orçamento apertado. Além disso, quem já tem um PC com plataforma LGA 1700 e DDR4 — o que inclui uma fatia enorme dos PCs montados no Brasil entre 2022 e 2024 — pode se beneficiar de um upgrade de CPU sem precisar trocar a placa-mãe nem a memória, caso o Raptor Lake Next mantenha retrocompatibilidade plena.

Será que vale esperar?
A pergunta que surge naturalmente é: devo esperar pelo Raptor Lake Next ou montar agora? A resposta depende do seu ponto de partida. Se você já tem uma plataforma LGA 1700 funcionando, a espera pelo Raptor Lake Next faz sentido — a promessa de compatibilidade com a placa-mãe atual e com a DDR4 que você já tem é tentadora. Se está partindo do zero, o cenário é mais complexo: montar com DDR4 agora usando um Raptor Lake atual (i5-13400F, i7-13700F) é uma opção válida e econômica, mas você ficará limitado a uma geração que já está em fim de ciclo.
O risco real está na incerteza. Intel e AMD ainda não confirmaram oficialmente nada sobre esses chips com suporte dual de memória. O que temos são sinais — atualizações de BIOS, rumores bem fundamentados e pressão de mercado óbvia — mas não anúncios formais. Se os planos mudarem ou se a crise de chips se resolver mais rápido do que o esperado, o mercado pode voltar a empurrar DDR5 como padrão sem olhar para trás.
O que isso significa para você
- Gamer com orçamento limitado: Ótima notícia. A DDR4 já é suficiente para gaming em 1080p e 1440p, e o retorno da compatibilidade significa builds mais baratos sem sacrifício perceptível de FPS. Se você tem plataforma LGA 1700 com DDR4, aguardar o Raptor Lake Next pode render um upgrade de CPU sem custo adicional de memória.
- Criador de conteúdo e editor de vídeo: Aqui a DDR5 ainda tem vantagens reais — maior largura de banda acelera renderização e exportação. Se o seu workflow é pesado, o custo extra da DDR5 pode se justificar. Mas se o orçamento é o gargalo, DDR4 com overclock bem configurada ainda entrega resultados sólidos.
- Usuário de IA e machine learning local: A DDR5 faz diferença mensurável em inferência local com modelos grandes. Se você roda LLMs ou treina modelos na máquina, a largura de banda extra da DDR5 (ou HBM, em GPUs dedicadas) é relevante. Não é o público que se beneficia mais desse movimento.
- Custo-benefício / quem monta PC pela primeira vez: A combinação de DDR4 barata + CPU de nova geração com suporte dual pode ser a equação mais inteligente de 2027. Fique de olho nos anúncios oficiais da Intel e AMD nos próximos meses — esse é o cenário mais promissor para quem quer entrar no PC gaming sem gastar uma fortuna.
O retorno da DDR4 não é nostalgia — é pragmatismo forçado por uma crise real de suprimentos. E para o consumidor brasileiro, que sempre precisou fazer mais com menos, essa pode ser uma das melhores notícias de hardware dos últimos anos. O mercado de memória está mandando um recado claro: às vezes, a tecnologia mais inteligente é a que já foi paga.



