Call of Duty no Switch 2: a promessa de 10 anos que decepcionou

Call of Duty no Switch 2: a promessa de 10 anos que decepcionou

Era um dos acordos mais simbólicos do setor de games: em fevereiro de 2023, como parte das condições para aprovar a aquisição da Activision Blizzard, a Microsoft firmou um contrato de 10 anos com a Nintendo para levar Call of Duty às plataformas da empresa japonesa. Três anos depois, o jogo finalmente chegou ao Nintendo Switch 2 — e a recepção, segundo o Wccftech, foi fria. Os primeiros testadores relatam que o port decepciona, e a situação levanta questões sérias sobre o que significa trazer um shooter AAA moderno para um hardware portátil de nicho.

Para o público brasileiro, a história tem camadas extras: o Switch 2 já chegou ao Brasil com preço salgado, e a expectativa de ter Call of Duty como argumento de venda era real. Agora, com relatos negativos dos primeiros testadores, vale a pena entender o que deu errado, por que era difícil dar certo, e o que isso significa para quem já tem — ou está pensando em comprar — o console da Nintendo.

O acordo que mudou o mercado — e o que ele prometia

O contrato entre Microsoft e Nintendo foi assinado em 21 de fevereiro de 2023, antes mesmo de a aquisição da Activision ser concluída. A ideia era simples: demonstrar às autoridades regulatórias que a Microsoft não tornaria Call of Duty exclusivo do Xbox/PC, comprometendo-se a lançar o jogo também na plataforma concorrente por uma década inteira. Para a Nintendo, era uma vitória histórica — a franquia nunca teve presença consistente em hardware da empresa, e trazer um dos maiores shooters do planeta para o ecossistema Nintendo era um argumento de peso.

O problema é que promessa e execução são coisas diferentes. Call of Duty é uma franquia construída para rodar em hardware de alto desempenho: consoles com GPUs potentes, SSDs rápidos e memória abundante. O Switch 2, por mais que represente um salto em relação ao Switch original, ainda é um dispositivo portátil com APU customizada da NVIDIA — poderoso para um handheld, mas distante do PlayStation 5 e do Xbox Series X em termos brutos de capacidade gráfica e de processamento.

Call of Duty no Switch 2: o port que gerou expectativa e decepção
Call of Duty no Switch 2: o port que gerou expectativa e decepção

Por que o port decepciona: o abismo técnico entre plataformas

Segundo o Wccftech, os primeiros testadores apontam problemas que vão além do esperado para uma versão portátil. Sem detalhes técnicos definitivos publicados até o momento do fechamento desta reportagem, os relatos giram em torno de queda de desempenho, qualidade visual abaixo do aceitável e experiência geral aquém do que a franquia entrega em outras plataformas. Para entender por quê, é preciso olhar para os números.

Plataforma GPU (TFLOPS aprox.) RAM Resolução alvo CoD Frame rate alvo
PlayStation 5 ~10,3 TFLOPS 16 GB GDDR6 4K (c/ reconstrução) 60–120 fps
Xbox Series X ~12 TFLOPS 16 GB GDDR6 4K nativo/reconstruído 60–120 fps
Nintendo Switch 2 ~1,7 TFLOPS (handheld) 12 GB LPDDR5X 1080p (dock) / 720p (portátil) 30–60 fps (estimado)

A diferença é brutal. O Switch 2 opera com cerca de 1/6 da capacidade de processamento gráfico do PS5 quando encaixado na dock, e menos ainda no modo portátil. Call of Duty moderno — com ray tracing, texturas em alta resolução, destruição ambiental e simulações físicas complexas — foi construído para hardware que o Switch 2 simplesmente não tem. Isso não é crítica ao console da Nintendo; é física. Portar um jogo assim exige cortes profundos, e cortes profundos resultam em experiências degradadas.

“O Switch 2 tem cerca de 1/6 da potência gráfica do PS5 — portar Call of Duty sem concessões severas seria fisicamente impossível.”

O histórico de ports difíceis no Nintendo Switch

Não é a primeira vez que um título AAA chega ao hardware da Nintendo com resultado controverso. O Switch original recebeu ports de jogos como The Witcher 3, Doom Eternal e Wolfenstein II — todos com sacrifícios visuais significativos, mas que, no geral, foram considerados feitos técnicos respeitáveis. A diferença é que esses títulos foram desenvolvidos com o port em mente desde cedo, com equipes especializadas dedicadas à tarefa.

Call of Duty é um caso diferente. A franquia lança títulos anualmente, com ciclos de desenvolvimento apertados. Adaptar cada iteração para o Switch 2 dentro desse calendário, mantendo paridade mínima de conteúdo com as versões de PS5 e Xbox, é uma tarefa que exige recursos e planejamento que podem não ter sido alocados de forma adequada — especialmente porque o acordo com a Nintendo é, em parte, uma obrigação regulatória, não necessariamente uma prioridade de negócio.

A frustração dos funcionários da Rockstar e o paralelo com a indústria

Curiosamente, a semana foi marcada por outro caso de expectativa versus realidade no mundo dos games: os vazamentos contínuos de GTA 6, que segundo o PC Gamer geraram frustração interna na Rockstar Games. Os funcionários da empresa estariam irritados com a exposição do trabalho antes do lançamento oficial. O paralelo com o caso CoD/Switch 2 é interessante: em ambos, há uma desconexão entre o que a indústria promete ou planeja e o que chega ao consumidor final.

No caso da Microsoft e Nintendo, a promessa foi feita em um contexto regulatório específico. O consumidor — especialmente o brasileiro, que pagou caro pelo Switch 2 — tem todo o direito de questionar se o compromisso foi cumprido de forma honesta ou apenas formal.

O acordo de 10 anos entre Microsoft e Nintendo: promessa cumprida ou obrigação regulatória?
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O ângulo brasileiro: quanto custa essa decepção?

No Brasil, o Nintendo Switch 2 chegou com preço de lançamento na faixa de R$ 4.500 a R$ 5.000 nas versões disponíveis, dependendo do pacote e do ponto de venda — valores que já representam um esforço financeiro considerável para a maioria dos consumidores brasileiros. Call of Duty, historicamente, custa entre R$ 300 e R$ 400 nas plataformas digitais brasileiras no lançamento.

Para quem comprou o Switch 2 apostando em ter acesso a CoD como argumento central — seja para jogar no portátil no metrô ou na TV da sala — a notícia de um port decepcionante é um golpe duplo: no bolso e na expectativa. E ao contrário do PC, onde um PC gamer pode ser atualizado por partes para rodar o jogo na qualidade máxima, o Switch 2 é um hardware fechado. Não há upgrade possível.

Vale lembrar também que o mercado de jogos físicos nos EUA registrou a pior queda desde 1995 em julho, com as vendas de consoles caindo 39% e o preço médio subindo para US$ 542, segundo o Tom’s Hardware. O cenário global de alta de preços e queda de volume bate direto no Brasil, onde câmbio e impostos já inflam os valores antes de qualquer tendência de mercado.

O que a Microsoft pode (e deveria) fazer

O acordo de 10 anos não especifica, pelo menos publicamente, padrões mínimos de qualidade para os ports — apenas a obrigação de disponibilizar o jogo. Isso cria uma brecha perigosa: tecnicamente, a Microsoft cumpre o contrato entregando uma versão funcional, mesmo que inferior. Para o consumidor, porém, “funcional” não é o mesmo que “boa”.

Uma alternativa seria investir em estúdios especializados em ports — como a Iron Galaxy, que fez trabalhos respeitáveis com Doom no Switch original — e dar a eles tempo e recursos adequados. Outra seria explorar o DLSS do Switch 2, que utiliza upscaling via IA da NVIDIA para compensar a limitação de resolução nativa, potencialmente melhorando a qualidade visual sem exigir mais do hardware. Se esse recurso foi aproveitado de forma adequada no port de CoD, os relatos negativos dos testadores sugerem que não.

O que isso significa para você

  • Se você é gamer e tem Switch 2: Aguarde análises completas e vídeos de comparação antes de comprar Call of Duty para o console. Se o seu principal interesse é CoD, a experiência no PC gamer, PS5 ou Xbox Series X/S será incomparavelmente superior. O Switch 2 brilha em outros gêneros e em jogos otimizados para o hardware.
  • Se você está pensando em comprar o Switch 2: Não tome a decisão baseado em Call of Duty. O console tem méritos próprios — portabilidade, catálogo exclusivo Nintendo, qualidade de construção — mas não é a plataforma certa para quem prioriza shooters AAA com visual e desempenho de ponta.
  • Se você é fã de CoD e quer o melhor desempenho possível: PC ou consoles de última geração continuam sendo a escolha óbvia. Em um PC bem configurado, você ainda tem a vantagem de mouse e teclado, maior taxa de quadros e qualidade gráfica máxima.
  • Do ponto de custo-benefício: Gastar R$ 4.500+ no Switch 2 para jogar uma versão inferior de um jogo que está disponível em plataformas mais baratas (ou no PC que você já tem) é uma equação difícil de justificar. O Switch 2 vale o investimento para quem quer a experiência Nintendo — não para quem quer CoD.

Veredito: o acordo foi cumprido, mas o consumidor merecia mais

O caso de Call of Duty no Switch 2 é um exemplo claro de como acordos regulatórios e interesses do consumidor podem não se alinhar. A Microsoft cumpriu a letra do contrato; a Nintendo ganhou um título de peso no catálogo. Mas o jogador — especialmente o brasileiro, que desembolsou valores consideráveis pelo console — recebe uma experiência que, segundo os primeiros relatos, fica aquém do prometido.

Isso não invalida o Switch 2 como plataforma. Invalida, sim, a narrativa de que Call of Duty no Switch 2 seria uma experiência equivalente à de outras plataformas. A indústria precisa ser mais honesta sobre os limites do hardware quando faz promessas ao consumidor — e o consumidor brasileiro, que paga mais caro por tudo por causa do câmbio e dos impostos, tem ainda menos margem para decepções.

Fique de olho nas análises completas que devem sair nas próximas semanas. Se o port melhorar com patches — como aconteceu com outros títulos no Switch original —, a história pode mudar. Por enquanto, a cautela é o melhor conselho.

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