O ray tracing — a técnica de iluminação que simula o comportamento real da luz em jogos — sempre teve um preço alto a pagar em memória de vídeo (VRAM). Quem já tentou rodar Cyberpunk 2077 ou Alan Wake 2 com ray tracing ativado em uma GPU de 8 GB sabe bem do que estamos falando: stuttering, quedas de framerate e, nos casos mais graves, o jogo simplesmente recusando carregar texturas. Agora, segundo o PC Gamer, uma atualização descrita como a “mais significativa do DirectX em anos” promete reduzir o consumo de memória do ray tracing em até 90% — um número que, se confirmado na prática, muda completamente a conversa sobre GPUs com pouca VRAM.
Não estamos falando de um truque de upscaling como o DLSS ou o FSR, que sacrificam resolução nativa para ganhar desempenho. Estamos falando de uma mudança fundamental em como o DirectX Raytracing (DXR) gerencia as estruturas de dados que tornam o ray tracing possível — especificamente as chamadas BVH (Bounding Volume Hierarchies), que são as estruturas aceleradoras de traçado de raios. É técnico, mas o impacto é muito concreto: mais ray tracing em GPUs mais baratas, e menos engasgos nas que já existem.
O Problema Que Ninguém Resolvia: VRAM e Ray Tracing
Para entender por que essa atualização é relevante, é preciso entender o problema de raiz. O ray tracing funciona construindo uma representação matemática de toda a geometria da cena — cada triângulo, cada objeto — em estruturas hierárquicas chamadas BVH. Essas estruturas ficam armazenadas integralmente na VRAM durante o jogo, e o problema é que elas são enormes. Em jogos modernos com cenários abertos e alta densidade de polígonos, as BVH sozinhas podem consumir vários gigabytes de memória gráfica, competindo diretamente com texturas, shaders e os buffers de renderização.
O resultado prático disso? Uma RTX 4060 com 8 GB de VRAM, por exemplo, frequentemente entra em colapso ao tentar rodar ray tracing em jogos pesados em resoluções acima de 1080p. A GPU tem poder de processamento suficiente para o ray tracing, mas simplesmente não tem memória para armazenar tudo. Isso criou uma divisão artificial no mercado: ray tracing “de verdade” ficou restrito a GPUs de topo, com 12 GB ou mais de VRAM. O update do DirectX ataca exatamente esse gargalo.
Como a Atualização DirectX Funciona
Segundo o PC Gamer, a atualização introduz um novo modelo de gerenciamento das BVH que permite que essas estruturas sejam comprimidas, paginadas e parcialmente descarregadas de forma muito mais eficiente. Em vez de manter toda a hierarquia de aceleração na VRAM o tempo todo, o novo sistema consegue trabalhar com subconjuntos relevantes para o campo de visão atual do jogador — uma abordagem conceitualmente similar ao streaming de texturas, mas aplicada às estruturas de ray tracing.
A redução de até 90% no consumo de memória é o número de pico citado — aplicável em cenários específicos onde as BVH eram especialmente grandes. Na prática média, a redução deve ser substancial, mas variável conforme o jogo e a implementação do desenvolvedor. O ponto crucial é que a API do DirectX expõe os mecanismos necessários; cabe aos desenvolvedores de jogos e aos fabricantes de drivers implementar o suporte. NVIDIA, AMD e Intel precisarão atualizar seus drivers para tirar proveito pleno da mudança.
“Potencialmente obter muito mais dos hardwares existentes não é algo a ser ignorado.”
— PC Gamer, sobre o novo update do DirectX para ray tracing
Comparativo: Antes e Depois nas GPUs Mais Usadas
Para contextualizar o impacto, vale olhar para as GPUs mais populares entre os gamers brasileiros e mundiais. Segundo a pesquisa de hardware da Steam de outubro de 2026 (reportada pelo Wccftech), a RTX 3060 voltou ao topo da lista de GPUs mais usadas na plataforma, com a RTX 5070 em segundo lugar. Isso significa que a grande maioria dos jogadores de PC ainda usa GPUs com 8 GB a 12 GB de VRAM — exatamente a faixa que mais sofre com o consumo atual do ray tracing.
| GPU | VRAM | Situação Atual com RT Pesado | Expectativa Pós-Update |
|---|---|---|---|
| RTX 3060 | 12 GB | Marginal em 1440p com RT alto | Confortável em 1440p |
| RTX 4060 | 8 GB | Crítica em 1080p com RT + texturas altas | Viável em 1080p/1440p |
| RTX 4060 Ti | 8 GB / 16 GB | 8 GB: limitada; 16 GB: OK | 8 GB passa a ser suficiente |
| RX 7600 | 8 GB | RT praticamente inviável em jogos pesados | RT leve a moderado possível |
| RTX 4070 | 12 GB | Boa, mas ainda com pressão em jogos densos | Excelente, com folga |
| RTX 5070 | 12 GB | Boa na geração atual | Margem ainda maior |
Nota: projeções baseadas na redução de até 90% citada pelo PC Gamer. Resultados reais dependerão da implementação por jogo e drivers.
O Ângulo da Concorrência: NVIDIA, AMD e Intel
Essa mudança no DirectX é, por natureza, agnóstica de fabricante — vale para qualquer GPU que suporte DXR. Mas o impacto não é igual para todos. A NVIDIA tem a arquitetura de ray tracing mais madura do mercado, com RT Cores dedicados desde a geração Turing (RTX 20xx). A empresa já vinha trabalhando em técnicas de compressão de BVH internamente, então a adoção do novo padrão deve ser relativamente fluida via atualização de drivers.
Para a AMD, a notícia é potencialmente ainda mais impactante. As GPUs Radeon historicamente sofrem mais com ray tracing do que as GeForce — tanto em desempenho bruto quanto em eficiência de memória. Uma redução significativa no consumo de VRAM das BVH pode aproximar a experiência de ray tracing nas Radeon RX 7000 e futuras RX 9000 da oferecida pelas GeForce. Já a Intel Arc, que tem desempenho de ray tracing surpreendentemente competitivo para o preço, também se beneficia diretamente.
Impacto no Mercado Brasileiro: O Que Muda Para Quem Compra GPU Aqui
No Brasil, o mercado de GPUs tem uma dinâmica bem específica. O câmbio desfavorável e a carga tributária fazem com que placas de vídeo de topo de linha custem entre R$ 6.000 e R$ 15.000 ou mais — valores proibitivos para a maioria dos jogadores. O resultado é que boa parte dos gamers brasileiros joga com GPUs de faixa intermediária, exatamente as que mais sofriam com o consumo de VRAM do ray tracing.
Uma RTX 4060 com 8 GB, que custa em torno de R$ 2.000 a R$ 2.400 no mercado nacional, sempre foi uma escolha difícil para quem queria ray tracing: o processador gráfico tinha potência, mas a memória era o gargalo. Com a redução de consumo prometida pelo novo DirectX, essa GPU passa a ser uma candidata muito mais séria para ray tracing em 1080p e até 1440p. O mesmo vale para a RX 7600 da AMD, que compete na mesma faixa de preço.
Outro ponto relevante para o consumidor brasileiro é o timing. A atualização do DirectX não exige compra de novo hardware — ela chega via atualização de sistema e drivers. Isso significa que quem já tem uma GPU compatível com DXR (basicamente qualquer RTX, RX 6000+ ou Arc) pode se beneficiar sem gastar um centavo a mais. Em um mercado onde trocar de placa de vídeo custa caro, uma melhoria gratuita via software tem valor enorme.
Quando Chega e Quais Jogos Vão Suportar?
Aqui mora o maior ponto de atenção. O PC Gamer reporta a atualização do DirectX como algo já anunciado ou em desenvolvimento avançado, mas o benefício real para o jogador final depende de uma cadeia de adoção: Microsoft precisa disponibilizar a atualização do DirectX, fabricantes de GPU precisam atualizar drivers, e desenvolvedores de jogos precisam implementar o suporte em seus títulos. Esse processo pode levar meses ou até anos para se consolidar no catálogo de jogos existentes.
Jogos novos lançados após a adoção do padrão serão os primeiros a se beneficiar plenamente. Títulos existentes como Cyberpunk 2077, Alan Wake 2 e Indiana Jones and the Great Circle — todos conhecidos por serem exigentes em VRAM com ray tracing — precisariam de patches dos desenvolvedores para tirar proveito da nova API. A CD Projekt Red e a Remedy Entertainment, por exemplo, têm histórico de suporte técnico robusto, então há esperança. Já títulos mais antigos ou de estúdios menores podem nunca receber a atualização.
O Que Isso Significa Para Você
- Gamer com GPU de 8 GB (RTX 4060, RX 7600): Esta é a melhor notícia do ano para você. Sua GPU sempre teve o processamento, mas faltava memória. Com a redução de até 90% no consumo de BVH, ray tracing em 1080p e talvez 1440p passa a ser viável de verdade — sem precisar trocar de hardware. Aguarde os drivers e os patches dos jogos.
- Gamer pensando em comprar uma nova GPU: A atualização do DirectX muda o cálculo de custo-benefício. GPUs de 8 GB, antes preteridas por causa do ray tracing, voltam a ser opções legítimas. Isso pode pressionar os preços das versões de 16 GB para baixo também, já que a diferença de VRAM perde parte da justificativa.
- Criador de conteúdo que usa ray tracing em renders: Ferramentas como Blender e D5 Render também usam DXR para ray tracing em tempo real. Se os desenvolvedores dessas ferramentas adotarem o novo padrão, workstations com GPUs de VRAM moderada ganham fôlego significativo.
- Usuário de IA / GPGPU: O impacto aqui é indireto — a liberação de VRAM antes ocupada pelas BVH pode ajudar quem roda modelos de IA locais em conjunto com jogos ou aplicações gráficas, mas não é o foco principal da atualização.
- Quem busca custo-benefício: Espere antes de comprar. Se a adoção for rápida, GPUs intermediárias com 8 GB de placa de vídeo podem se tornar a melhor compra do mercado em breve. Acompanhe os benchmarks quando os primeiros jogos com suporte chegarem.
Veredito editorial: A promessa de reduzir o consumo de memória do ray tracing em até 90% via atualização de DirectX é, se confirmada em jogos reais, uma das mudanças mais democráticas que o PC gaming viu em anos. Não resolve o problema do desempenho bruto — GPUs mais potentes ainda renderizarão ray tracing melhor — mas remove o gargalo artificial de VRAM que excluía milhões de jogadores da experiência. O ceticismo é saudável: o diabo mora na implementação por jogo. Mas o potencial é enorme, especialmente para o mercado brasileiro, onde trocar de GPU é uma decisão financeira séria. Fique de olho nos próximos meses.



