A DLSS 5 chegou prometendo ser a maior revolução em upscaling da NVIDIA — e de fato entrega frames impressionantes. Mas um teste conduzido pelo portal coreano QuasarZone, repercutido pelo Tom’s Hardware e pelo TechPowerUp, revelou um efeito colateral que ninguém queria ver: o conector de alimentação de 16 pinos da GeForce RTX 5090 ultrapassando os 90°C durante sessões de jogo com DLSS 5 ativo, com picos de consumo chegando a 647 W. Isso não é só um número assustador no medidor de wattagem — é um sinal de alerta real para quem tem ou planeja ter uma das GPUs mais poderosas do mercado.
O problema não é novo em essência: o conector 16-pin (também chamado de 12VHPWR ou 12V-2×6 na revisão mais recente) já acumulou um histórico turbulento desde o lançamento da série RTX 40. Mas a combinação de um chip Blackwell com TDP elevadíssimo e uma tecnologia de IA que empurra o consumo ao limite cria uma equação perigosa — e que merece ser explicada em profundidade antes que você ligue sua RTX 5090 e deixe o DLSS 5 rodar solto.
O que é o DLSS 5 e por que ele consome tanto?
O DLSS 5 (Deep Learning Super Sampling 5) é a versão mais recente do sistema de upscaling com inteligência artificial da NVIDIA. A principal novidade em relação ao DLSS 4 é o chamado Neural Rendering — um modo que não apenas reconstrói frames a partir de resolução menor, mas usa redes neurais para gerar geometria, iluminação e detalhes que nem chegaram a ser renderizados pela GPU. Em termos práticos, a placa processa menos pixels “reais” e deixa a IA preencher o restante, resultando em framerates muito mais altos.
O paradoxo está exatamente aí: ao gerar mais frames por segundo via IA, o chip Blackwell precisa trabalhar mais intensamente nos núcleos de Tensor (responsáveis pelas operações de aprendizado de máquina), o que eleva o consumo de energia de forma significativa. A RTX 5090 já tem um TDP oficial de 575 W — o mais alto já visto em uma GPU para consumidor. Com o DLSS 5 em plena carga, o QuasarZone mediu picos chegando a 647 W, ultrapassando o limite de projeto em mais de 12%.
“O conector de 16 pinos da RTX 5090 atingiu temperaturas acima de 90°C durante os testes com DLSS 5 ativo — um nível que levanta sérias dúvidas sobre a margem de segurança do componente.”
QuasarZone / Tom’s Hardware
O histórico problemático do conector 16-pin
Para entender a gravidade do problema, é preciso voltar a 2022, quando a NVIDIA lançou as RTX 40 com o conector 12VHPWR. Logo nos primeiros meses, relatos de conectores derretidos se multiplicaram — e a causa principal identificada era o encaixe incompleto do conector, que gerava resistência elétrica extra e, consequentemente, calor. A NVIDIA e a PCI-SIG responderam com uma revisão chamada 12V-2×6, adotada nas RTX 50, com travas mais seguras e pinos de detecção de presença.
A revisão melhorou a situação, mas não eliminou o risco completamente. Conectores de 16 pinos são projetados para suportar até 600 W segundo a especificação PCI-SIG — e a RTX 5090 com DLSS 5 já está ultrapassando esse limite. A temperatura de 90°C medida no conector (não no die da GPU, mas no próprio plug físico) está perigosamente próxima do ponto em que o plástico começa a sofrer deformação e os contatos elétricos perdem eficiência.

Os números em perspectiva: comparativo de consumo
| GPU | TDP Oficial | Pico Medido (DLSS 5) | Conector | Temp. Conector |
|---|---|---|---|---|
| RTX 4090 | 450 W | ~480 W (DLSS 3) | 16-pin 12VHPWR | ~60–70°C |
| RTX 5090 | 575 W | 647 W (DLSS 5) | 16-pin 12V-2×6 | >90°C |
| RX 9070 XT (AMD) | 304 W | ~330 W | 2x 8-pin | <50°C |
A tabela deixa claro o abismo de consumo entre as gerações e entre as arquiteturas. A RTX 4090, que já era considerada gulosa em 2022, consome quase 200 W a menos no pico do que a RTX 5090 com DLSS 5. E a RX 9070 XT da AMD, concorrente de faixa inferior mas capaz de 4K competitivo, opera com conectores convencionais de 8 pinos e temperaturas de conector muito mais tranquilas — um argumento que AMD certamente vai explorar no marketing.
DLSS 5 em jogos estilizados: quando a IA decepciona
Além do problema térmico, o DLSS 5 Neural Rendering tem outro calcanhar de Aquiles: o desempenho visual em jogos com arte estilizada. Segundo testes reportados pelo Wccftech, o Neural Rendering tende a introduzir artefatos visuais e perda de fidelidade artística em títulos que não usam fotorrealismo — jogos com cel-shading, pixel art ampliada ou paletas de cores saturadas ficam com aparência “processada demais”, perdendo a identidade visual original.
Curiosamente, o mesmo Wccftech reportou resultados surpreendentemente bons em Super Smash Bros. Melee rodando via emulador — um caso de uso não oficial que demonstra como o Neural Rendering pode funcionar bem quando há padrões de imagem mais previsíveis. Para jogos AAA fotorrealistas como Cyberpunk 2077, Alan Wake 2 e similares, o DLSS 5 entrega resultados impressionantes. Para jogos de arte mais estilizada, a recomendação é usar o modo DLSS 4 convencional ou desativar o Neural Rendering.
O que a NVIDIA diz — e o que ela não diz
Até o fechamento desta reportagem, a NVIDIA não emitiu comunicado oficial sobre as temperaturas reportadas no conector da RTX 5090 durante o uso do DLSS 5. A empresa historicamente argumenta que o conector 12V-2×6 é certificado para as cargas da placa e que picos de consumo momentâneos estão dentro das tolerâncias de projeto. Mas “dentro da tolerância” e “seguro a longo prazo” são conceitos diferentes — especialmente quando falamos de temperatura de conector acima de 90°C em sessões de jogo que podem durar horas.
O ponto mais preocupante é que o consumo de 647 W foi medido com DLSS 5 ativo — uma feature que a própria NVIDIA promove como o futuro do gaming. Quanto mais jogos adotarem o Neural Rendering, mais frequentes serão esses picos de consumo. Isso coloca uma pressão adicional não só no conector, mas em toda a cadeia de alimentação: a fonte de alimentação precisa ser de alta qualidade e com capacidade real (não nominal) acima de 1000 W para sustentar um sistema com RTX 5090 sem instabilidades.

Impacto no mercado brasileiro
No Brasil, a RTX 5090 chegou com preços que variam entre R$ 18.000 e R$ 25.000 dependendo do modelo e da loja — valores que já a colocam em território de nicho extremo. Quem desembolsou esse montante certamente não quer descobrir que o conector da sua placa está operando no limite térmico. O problema se agrava porque a maioria das fontes de alimentação vendidas no Brasil na faixa de 850 W a 1000 W pode não entregar a potência real necessária para sustentar picos de 647 W na GPU mais a carga do restante do sistema.
A recomendação prática para o mercado nacional é clara: se você tem ou planeja comprar uma RTX 5090, invista em uma fonte certificada 80 Plus Platinum ou Titanium com pelo menos 1200 W de capacidade real — não nominal. Marcas como Seasonic, be quiet! e Corsair têm opções nessa faixa disponíveis no Brasil. Além disso, verifique periodicamente o encaixe do conector 16-pin: um plug frouxo é a diferença entre 90°C e um incidente mais sério.
Para quem está montando um PC do zero com foco em performance máxima, vale considerar também que a RTX 5080 — com TDP de 360 W e conector mais tranquilo — entrega desempenho excelente em 4K com DLSS 5 e sem os riscos térmicos da 5090. A diferença de preço entre as duas no Brasil costuma ser de R$ 5.000 a R$ 8.000, o que representa uma margem considerável para investir em outros componentes.
O que isso significa para você
- Gamer que já tem RTX 5090: Use o DLSS 5 Neural Rendering com consciência. Monitore a temperatura do conector com ferramentas como HWiNFO64 (sensor “12VHPWR connector temp”). Certifique-se de que o plug está completamente encaixado e que sua fonte tem capacidade real acima de 1200 W. Considere limitar o Power Limit da GPU em 10–15% — você perde pouco desempenho e ganha margem de segurança significativa.
- Gamer que está decidindo entre RTX 5090 e 5080: O risco térmico do conector é um argumento concreto a favor da RTX 5080. Para gaming puro em 4K, a 5080 entrega experiência excelente com muito menos dor de cabeça — e a diferença de preço no Brasil é expressiva.
- Criador de conteúdo e profissional de IA/renderização: Para cargas de trabalho longas e contínuas (renderização 3D, treinamento de modelos), o consumo sustentado da RTX 5090 é ainda mais preocupante do que em gaming. Avalie seriamente limitar o Power Limit ou optar por soluções workstation (RTX 6000 Ada, por exemplo) que foram projetadas para operação contínua em alta carga.
- Custo-benefício: A RTX 5090 com DLSS 5 é tecnicamente impressionante, mas o combo de preço estratosférico no Brasil, consumo acima da especificação do conector e riscos térmicos reais torna a relação custo-benefício questionável para a maioria dos usuários. A placa de vídeo certa para 99% dos gamers brasileiros ainda está várias casas abaixo na linha de produtos da NVIDIA.
O DLSS 5 é genuinamente revolucionário em termos de qualidade de imagem e performance. Mas a NVIDIA precisa resolver a equação do conector antes que “DLSS 5 ativo” vire sinônimo de “conector no limite”. Por ora, a tecnologia chegou mais rápido do que a infraestrutura de alimentação conseguiu acompanhar — e quem paga o preço, literalmente, é o consumidor.



